sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Doação

É choro que não tem lágrima. Lágrima represada que aperta. Aperto no peito que sufoca. Sufoco que dá vontade de gritar. Grito contido de quem perdeu o ar.

Hoje estou doando angústia.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Masoquistas!

Amor não é alegria. É angústia.
Não são fogos de artifício. É implosão.
No lugar da paz, inquietação.

Amor é ansiedade em seu estado puro.
Essencialmente, pertubador.
Amor é loucura e, valham-me os clichês, rima com dor.

Amor faz da dúvida morada.
Me ama? Ficará comigo? O que está a pensar?
A mente do ser amado: um mistério a decifrar.

E, mesmo assim, tem o Amor um incontável séquito de seguidores.
Masoquistas do coração, escolhem na incerteza viver.
Gritam de peito aberto e a plenos pulmões: que venham o medo e a insegurança.
Não são alegres. Seres cuja ideia do fim está sempre à espreita.
Mas como são felizes os desgraçados!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Feliz Aniversário

No seu aniversário e em todos os anos da sua vida, desejo a você: você.

Você sem tirar nem por;

Você cuspido e escarrado;

Você ponto a ponto;

Você tintim por tintim

Felicidade, saúde, dinheiro e amor demandam não só esforço como sorte.

Ser você só depende de você (é a expressão máxima do livre-arbítrio).

E sendo você todo você, acredite, poderá ser o que quiser.

Para Gibran, que a cada dia é mais ele e me faz mais feliz

domingo, 4 de dezembro de 2011

Lá fora

Lá fora, comemoram.
Foi o time que ganhou,
Foi Maria quem casou,
Foi a festa do Senhor.

Lá fora, dançam.
Foi o medo que passou,
Foi a alegria que chegou,
Foi ele quem ficou.

Lá fora, convidam:
“Comemore, dance.
O time ganhou, Maria casou, é festa do Senhor.
O medo passou, a alegria chegou e ele, ah, ele ficou”.

Lá fora, insistem:
“Vem logo. Antes que o time desabe, antes que Maria descase, antes que o Senhor acabe.
Antes que o medo volte, que a alegria não seja forte, que ele se revolte”.

Lá fora, silenciam.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Desesperança

Somos a sombra do que um dia fomos e somente esboço do que queríamos ser. Perdemos a memória do futuro.

Onde guardamos as lembranças do que viveríamos?
Onde estão as fotos do que estava para acontecer?
Onde está o que estava para acontecer?

Em um esquizofrênico teatro do cotidiano, encenamos nós mesmos. Intermináveis monólogos ou diálogos non senses. Por vezes sou bruxa, em outras palhaço. Nunca sou o papel (revelador) que reivindico: o de iluminador. Nessa vida-metáfora, não queria estar em cena, a ter que lembrar diariamente de minhas falas e marcações. Minha personagem me entedia.

Lá fora tudo bate, espreita, roda, buzina e convoca. Aqui, nada acontece. Coloco gelo nos hematomas de embates que não quero mais ter. Mesmo assim, os tenho. São os restos de uma pulsação vital.

Na desesperança, me aconchego, sossego. Na desesperança, sou livre e feliz.

Escrevo

Escrevo e me construo.
Esculpo minhas máscaras,
Gravo minhas farsas,
Traduzo meus desejos,
Desnudo meus segredos.
Narro-me.
Escrever é inscrever-me em mim.

domingo, 20 de novembro de 2011

Evolução

Por vinte anos tive uma amiga querida. Ela era inteligente, divertida e animada. Amiga para momentos bons e ruins. Tinha defeitos tão terríveis quanto suas qualidades, é verdade. Mas também os tenho e também são enormes. Diante de minha falta de moral no assunto, relevava sua futilidade e língua afiada. Sabe-se lá quantas coisas terríveis ela também relevou para ser minha amiga por tanto tempo. O certo é que nutríamos uma pela outra amizade e afeto sinceros.

Sempre, no entanto, existiu entre nós uma questão: ela era fascista. Todos os fios de seus cabelos loiros eram de extrema direita e sua metralhadora verbal voltava-se aos negros, pobres, gays, mulheres(!) e surdos. Sim, surdos. Digo era porque hoje não sei mais. Tenho esperanças que as pessoas mudem. Alexandre não. “Sou pessimista”, ele informou da última vez que nos encontramos, barrando mais um momento tudo-vai-dar-certo-tenho-certeza. Mas eu tenho fé na evolução da espécie. Outro dia meu pai perguntou: “o que estamos fazendo pela evolução da espécie?“. Murchei. Penso que estou fazendo muito pouco.

Da amiga em questão, eu me afastei. A briga foi séria e definitiva. O que no início era um incômodo, tornou-se uma diferença irreconciliável. Não tinha como relevar mais. Relevar era negar os meus mais profundos princípios. A amiga antes divertida, passou a me dar náuseas.

Para os que insistem em questionar - “você perdeu uma amiga por isso?” - eu tenho o prazer de reafirmar: “Isso” não é tudo, mas é muito. Diz do caráter, da visão de mundo e até da inteligência.

Acho que evolui.