segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Batom

De vez em quando ele, com muito esforço, conseguia colocá-la sentada na cama. Penteava-lhe os cabelos e passava-lhe um batom vermelho na boca. Ela não sorria e permanecia sem nada demonstrar, mas esse era o único sopro de vida que sentia naqueles dias cinzas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Beth, a louca


Uma moça destruiu um carrão em uma via pública. Especula-se que era um viral do Bradesco Prime tentando nos convencer de que vale à pena fazer um seguro com uma empresa que tenta nos envolver em um engodo. Queria que não fosse um viral, porque simpatizei com ela, diferente dos que filmavam supondo ser uma história real e a achando loca demais, eu me compadeci de sua ira e quis inventá-la como uma conhecida. Existem outros vídeos na internet, reais, de atos insanos como esse e costumeiramente seus executores ganham minha simpatia. Talvez porque sinto que já estive, em alguns momentos, a poucos passos de cometê-los. Talvez já até tenha cometido, mas sob a proteção de minhas quatro paredes, longe dos smart phones do mundo, longe da possibilidade de que a alcunha de louca fosse além dos gritos de reação de quem me olhava estupefado.

Cabelão, corpo esquio, andar de gazela e martelo na mão, Beth bateu bastante no Honda preto do namorado. Está sendo chamada, e sabe disso, de “A louca da Vila Olímpia”. Já eu não cai na rede, na boca do povo e não queimei no fogo do inferno, mas não estou imune a atos de insanidade, a ficar muito louca, a responder com som e fúria significando nada. Costumo quebrar muito mais do que carros com o martelo que carrego na língua. Sou bem capaz de rasgar roupas, furar pneus e demais coisas bem clichês dessa loucura que insistem em chamar de feminina (se fosse um homem, nessa situação, será que seria chamado de O louco ou lhe cairia melhor O vingador da Vila Olímpia?). 

Não estou fazendo aqui uma defesa da insanidade e do quebra-quebra. Beth, minha ruiva inventada, está errada. Eu estou errada quando ajo como ela, porque a vingança não deve ser uma escolha plausível. Porque quando quebramos, os cacos também nos atingem. Mas talvez Beth tenha, ali, na quebradeira e loucura teatralizada e filmada para a posteridade, encerrado de vez sua vingança. Está errada, claro, mas o saldo de um carro estilhaçado pode ser perdoado. Ronaldo, o ex-namorado, talvez nunca a perdoe, pois amava seu carro mais do que tudo. Mas e nós? Não era nosso nem o carro, nem o relacionamento. Também temos que condená-la e marcar em seu rosto, pelo prazer do circo de horrores (que agora curtimos e compartilhamos), o apelido de louca? Ou podemos enxergar a humanidade por trás de seus enormes óculos escuros? 

Beth teve uma insanidade passageira, confidenciou-me a pouco em um misto de sentimento de culpa e de um bem que ele mereceu que, acredito, irá passar. Diferente de uma pessoa bem mais vingativa que conheci recentemente. No lugar de destruir o carro do ex-amor que a decepcionou por não amá-la mais, ela martelou em coisas bem mais significativas, que não se resolverão em um martelinho de ouro, que não são recuperadas em concessionárias. Sei que deixar de nos amar é um direito do outro que não temos a faculdade de compreender sem o necessário tempo de cura. Sei que dói e que não estou imune de gritar em mim a vontade de vingar, destruir, estraçalhar também coisas profundas, apesar de nunca ter estado a poucos passos de me vingar com tamanha magnitude de ninguém. O que não compreendo é porque Beth é chamada de louca e essa outra pessoa de mãe. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Surpresa


Um urso chamado Bartolomeu, um ralador de última geração, duas mãos estendidas, uma caixa azul, dois livros desejados, uma vela perfumada, duas barras de chocolate, três beijos na boca, um livro do Gabriel Garcia Marques, um espremedor de alho, uma declaração inesperada, um pacote de balas, a última temporada de House, um CD, um caderno, uma mala a fazer e a certeza renovada de que a vida é bonita também.  

domingo, 16 de setembro de 2012

Paulo Navarro: fim da picada


No dia 8 de setembro, o colunista social Paulo Navarro publicou a seguinte nota no jornal da Pampulha:

"FIM DA PICADA: As autoridades precisam se entender quanto à programação da Serraria Souza Pinto e atividades sob o viaduto Santa Tereza. Um prejudica o outro, porque têm públicos totalmente diferentes. Dia 31, a performance de cantores de rap assustou os convidados do Baile da OAB, sobretudo as mulheres. Por isso, a Serraria deixou de ser palco de grandes eventos sociais".

A nota de Navarro espelha a elite tacanha e preconceituosa de Belo Horizonte. A enxurrada de equívocos que, especula-se, não é este o Navarro que escreve, começa já na primeira linha. Na contramão do que clama parte da população da cidade, Paulo convoca as autoridades, porque, para ele e seus pares, não existe possibilidade de diálogo e debate na esfera pública sem a intermediação de um poder regulador. O motivo é claro: as regulamentações, constantemente, estão a serviço de Paulo e Cia. Exemplo notório disso é o decreto da Praça da Estação publicado pelo atual prefeito após pressões da empresária Ângela Gutierrez.

Na sequencia, Navarro afirma que um prejudica o outro. Trata-se de um “achismo”, uma vez que Paulo, ao que se sabe, não entrevistou nenhum integrante ou público do Duelo de MCs. Aqui, o colunista lança mão da imparcialidade como estratégia quando, na verdade, é porta-voz de apenas um lado. O motivo do prejuízo – “porque têm públicos totalmente diferentes” –, é puro eufemismo. O que Paulo quer dizer é que, de um lado, estão brancos e ricos e, do outro, pretos e pobres. 

Na gênese da criação de Belo Horizonte está o fetiche da segregação. A “cidade jardim” que teve uma avenida separando o centro moderno e promissor da periferia invisível não foi feita para a convivência. Quando o manto da invisibilidade começa a ser rasgado, a elite se desespera (e chama a polícia, o prefeito, o governador, o papa). Pessoas como Paulo não querem e não estão preparadas para entender que uma cidade democrática pressupõe a convivência de cidadãos de grupos sociais, credos, etnias e opções sexuais diferentes. Pessoas como Paulo estão, agora, comemorando o advento dos “frescões”. 

É necessário dizer que fico absurdada de alguém que escreve em um jornal chamar o Duelo de MCs de performance de cantores de rap. O evento, que ocorre semanalmente há cinco anos, é pacífico, aberto, gratuito e nada tem que justifique o “susto” das bem vestidas e laqueadas senhoras da capital mineira. Quem entrava na Serraria, coalhada de seguranças e grades de proteção, assustava sim, mas era com a cor da pele dos que estavam embaixo do viaduto. Preto só não assusta quando está na cozinha, na obra, estacionando o carro. Pretos (e brancos) em grande número, a serviço da celebração de uma cultura negra, urbana e periférica, é pânico na certa. 

Quanto à Serraria, se ela deixou de ser palco de grandes eventos sociais só tenho a comemorar. Quem sabe, agora, esse local encontre uma forma de cumprir a função pública para a qual ele foi reformado. Além do mais, a Souza Pinto tem à sua porta um dos maiores e mais importantes eventos culturais que existe atualmente na cidade, motivo de orgulho para qualquer espaço que se preze. 

Escrevendo esse texto me lembrei de um do Sakamoto em que ele dizia: “Não tenho medo de ser assaltado em meu carro porque não tenho carro. Não receio que levem minhas jóias ou meu relógio caro porque não tenho relógio. Não fico com pavor de entrarem na minha casa e levarem tudo porque meu bem mais precioso é um ornitorrinco de pelúcia. Não me apavoro em andar na rua à noite a não ser por conta do risco de chuva. E por mais que vá a bons restaurantes de vez em quando, devo ressaltar que nunca fui assaltado em nenhuma barraca de cachorro-quente… Acho que já deu para entender o recado. Não tenho medo da minha cidade porque, tenho certeza, ela não precisa ter medo de mim”. Naquele dia, eu estava lá. Vendo a contradição entre aquilo que ostentam dois universos tão distintos também tomei um susto. Como vem acontecendo quase cotidianamente, tomei um susto com o Brasil.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Onde está?


Onde está a felicidade? 
Você a perdeu?
Tenho certeza que deixei aqui em algum lugar.
Eu te vi mesmo com ela. Tô lembrando...
Não viu? Agora eu não consigo mais achar.
Vi sim. Tava na sua mão.
Mas eu perdi. Não consigo achar de jeito nenhum.
Já olhou na gaveta?
Olhei em todos os lugares.
Você perde tudo...
Vai ficar me acusando?
É uma constatação: não pode colocar nada na sua mão que você perde.
De que adianta me recriminar? A felicidade sumiu! 
Mas você tem que ter responsabilidade com as coisas!
Vai ver foi você quem pegou!
Eu?
É. Você escondeu a felicidade de mim!
Por que eu faria isso?
Pra me jogar na cara que eu perco tudo.
Eu devia era ter escondido mesmo. Assim, saberíamos onde ela está.
(...)
O que?
Preciso dela.
É importante?
Muito.
Jura que é importante pra você?
Juro.
Então eu vou te arrumar outra. Maior e mais bonita. Você nem vai se lembrar dessa que perdeu.
Promete?
Prometo. Agora pode parar de chorar. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Quando


Quando o mundo fica cinza e deserto e chato e parecendo que estou boiando meio que desligada de tudo, acontece a mesma coisa. Desde que te conheço – há quantos anos te conheço? – é a mesma coisa que acontece: você aparece com esse jeito mais doce de me lembrar que se importa. Você sempre se importa, porque me ama, me admira e me poetiza (e me faz sentir uma fraude, é verdade). E ai você tem essa mania de vir me salvar mesmo quando eu não peço. 

Li o bilhete e chorei, mas não respondi por que deu um nó tão grande na garganta que eu não dei conta de desatá-lo para colocar em palavras. Queria revelar – sob a pena de partir suas ilusões com um machado imaginário gigantesco – que eu não sou corajosa. Gostaria de ser, mas tenho medo de escuro (e do monstro no armário, lembra?). Tenho medo também de nunca mais termos na vida aquelas tardes à toa, fumando, escutando música e tendo o tempo inteirinho nas mãos e pela frente (confesso que sinto uma saudade especial dos meninos e do tanto que eles nos faziam sofrer sem que, no fundo, tenhamos algum dia sofrido realmente).

É você que sempre me faz voltar aqui e é também você que, muitas vezes, me faz voltar a mim. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Não vá dormir

Não vá dormir.
Não durma nunca.
Fique pra sempre acordado.
Como saberei, enquanto está dormindo, se sou amado?
E se no seu sonho aparecer um outro alguém?
E se ficar enamorado?
Se dorme é porque não reside em você o medo de me perder.
Como pode dormir sabendo-me aqui?
E se no meu sonho aparecer um outro alguém?
E se meu coração for raptado?
Além disso, tenho saudades de você.
Até quando dormimos abraçados.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Por que marcham as vadias?


Um dia na faculdade um menino veio conversar comigo. Me contou que eu estava com fama de fácil. Detalhe que talvez importe na narrativa: estudávamos, eu e o menino, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Não sei se sua intenção era boa ou ruim e isso pouco me importava, mas ele enfatizou: todo mundo diz. Também não me lembro qual foi sua reação diante da minha retumbante gargalhada. Talvez tenha ficado surpreso ou me achado louca. Pode, ainda, ter pensado, compadecido, que era uma atitude de desesperado embaraço diante de tão abaladora revelação. Às vezes, machista é tão ingênuo! 

Eu não estava abalada, muitíssimo pelo contrário. Ria regozijando e era inteira tomada de uma profunda satisfação. Era tão grande o orgulho que sentia que, imediatamente, adotei  uma postura ereta, queixo erguido, passadas firmes, quase arrogantes. O que, alguns anos antes, teria me provocado imenso horror, me encheu de uma sublime alegria.  Eu tinha chegado lá e era, enfim, uma vadia. 

Confesso, consternada, que no plano afetivo-sexual pouco fiz para merecer a condecoração. Nesse quesito, minha vida era uma espécie de O Artista: nem tão ruim que saímos no meio da seção, nem tão bom que merecesse ganhar o Oscar. Soldado raso no campo da vadiagem era tratada, no entanto, como general, comandante da putaria.

Existindo minhas peripécias sexuais apenas na fantasia daqueles que me nomeavam, por que minhas mãos na calçada da fama?  Elementar, meu caro Watson: eu não me encaixava. Ou melhor, eu não me encaixava mais. Finalmente, o mundo compreendia a mudança lenta e gradual, pé ante pé, que eu fazia na minha vida. Uma tentativa de ligar cada vez mais o fôda-se, de me desvencilhar das neuroses da minha criação, da escola onde estudei, de trajetórias e comportamentos pré-determinados. Ainda estava tão lá atrás... 
PAUSA PARA SUSPIRO NON SENSE: Ainda estou tão lá atrás... Tão contraditório, mas quanto mais ando em minha direção, mais distante fico de mim. É uma loucura de sempre almejar mais me ser e então converto-me em algo quase inalcançável para mim mesma... Ainda carrego tantos pesos... Ainda tenho tantas amarras... 
Mas, para um grupo da faculdade, eu já estava em outro lugar, já era essas mulheres, já era esse tipo. Mesmo que, secretamente, eu me sentisse uma farsa, assumir minha nova forma social foi uma experiência epifânica. E, tendo apenas um gostinho da liberdade, eu entendi que ser livre é quase tão libertário quanto morrer, e o melhor: não precisa morrer. 

Como vadia que sou, amanhã estarei na marcha. Marchamos contra a opressão de gênero, pela legalização do aborto, pelo direito pleno ao nosso corpo, contra os padrões de beleza e a violência, contra o machismo (o racismo e a homofobia), contra a ideologia da mulher-coisa, pela valorização do indivíduo, da humanidade, pela paz, pelo respeito, pelas mulheres da Eliana Silva. Marchamos, com postura ereta, queixo erguido, passadas firmes e juntas, porque a liberdade de sermos quem somos é um poder real e imbatível que temos sobre o mundo. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Não sou petista


Não sou petista, vale dizer. Sempre me confundem, mas saliento: não sou petista. Puxando pela memória, até me recordo de um dia ter sido, em alguma medida, petista. Apesar de nunca ter sido filiada, era uma espécie de militante lado B, a carregar com estardalhaço - ao menos de quatro em quatro anos - a estrela vermelha no peito. 

É a mais pura verdade que voto no Lula desde que me entendo por eleitora. E sim: assino embaixo do “nunca antes na história desse país...”. Também votei na Dilma que, além de ser sucessora do cara, ainda tem vagina (veta Dilma e faça passar um pouco da birra que estou de você!). Acho que os dois foram as melhores opções para o país, apesar de pilotarem um trator chamado desenvolvimento que, muitas vezes, derruba casas e vidas (que o diga as populações ribeirinhas). Além disso, minha arma cidadã está constantemente apontada contra aqueles que representam o que mais abomino na política brasileira. Porém, ressaltemos: não sou petista. 

O PT me perdeu definitivamente (e está cagando pra isso, é verdade) quando o Pimentel dissolveu o partido em Belo Horizonte. Tenho um amigo que diz: “não vou desistir. Não vou entregar o PT, vou ficar e lutar. Vou disputar o partido”. E eu pergunto: qual? Esse que confirmou o apoio ao Lacerda? Tá certo, existem uns gatos pingados tentando fazer alguma coisa que lembra aquilo que um dia foi o Partido dos Trabalhadores, mas a grande maioria parece atuar em benefício próprio ou em nome de um bicho de dezoito cabeças chamado conjuntura nacional. Vontade de gritar: “não vendam a minha cidade em nome dessa porra!”. Mesmo assim, insistem em dizer que eu sou petista.

Andei investigando o fenômeno. As pessoas que me acusam de petista não o fazem por causa do meu voto ou da minha outrora militância fajuta. A alcunha que recebo é por ser a favor do sistema de cotas, do casamento gay, da legalização do aborto e da maconha, da igualdade entre os gêneros, da justiça social, da distribuição de renda, do respeito aos direitos da população de rua, da reforma agrária. Sou a favor das comunidades que lutam por moradia, da taxação dos mais ricos, de invadir terras, de ocupar a cidade, de pisar na grama, de arrancar as grades, de rolar na praça, de bagunçar o coreto, de perder essa cara de limpinho, arrumadinho, engomadinho. Sou a favor da liberdade sexual, da preservação do meio-ambriente, da desmilitarização da polícia e de fuder a Veja. 

Vamos deixar uma coisa bem clara aqui, camarada: isso não chama petista, isso chama de esquerda. Fazendo um paralelo, você que não é a favor de quase nada do parágrafo anterior (nem do meio-ambiente?) não é tucano ou democratas. Talvez, você nem vote. Você é de direita. Ficou mais claro? E não me venha com esse papo de centro-blá-blá. Eu sei que depois da ditadura começou a pegar maior mal falar que é de direita nesse país, mas já está na hora de encarar os fatos e sair do armário: você é de direita. Essa é a condição em que você se encontra por livre e espontânea vontade. Você pode até não ser de extrema direita, um reacionário-nazi-babaca, mas desiste de me convencer desse centro-sei-lá-o-que. Já eu sou de esquerda: sem centro e sem meia. De cara limpa e sem a menor disposição para alianças escrotas. Eu sou de esquerda: bem menos do que almejo, bem mais do que você tolera. 

Agora, podemos começar a conversa?

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Somos Todos Emicida

Tenho lido várias coisas sobre a prisão do Emicida em Belo Horizonte. A mais esdrúxula delas – depois do B.O fabricado, claro – dizia que o rapper queria se promover à custa do episódio. Por isso, começo dizendo que quando foi informado que seria preso, Emicida comportou-se como qualquer um de nós se comportaria. Era evidente em seu rosto que ele estava surpreso, apreensivo e indignado. Se esse episódio trouxe para ele alguma visibilidade, essa foi conseqüência da ação da PM e, de forma alguma, do músico. O que Emicida desejava não era ser preso, mas ir para o hotel descansar depois do showzaço que fez na cidade.

Um pouco antes de anunciar a principal atração do evento, PDR leu um texto que dizia mais ou menos assim: “Sexta-feira passada a comunidade Eliana Silva, aqui no Barreiro, sofreu uma ação violenta de desocupação. Agora, cerca de 300 famílias estão ao relento. O Palco Hip Hop se solidariza com a luta e com a resistência dessas pessoas. Somos todos Eliana Silva!”. Na sequencia, subindo ao palco, Emicida repetiu: “Somos todos Eliana Silva!”. O público, até então apático diante do primeiro grito de solidariedade, respondeu com entusiasmo. Diante do ídolo de braços erguidos, todos sentiram-se Eliana Silva, alguns se compadeceram do sofrimento de quem perde sua moradia. Com o meu pouco conhecimento da cultura hip hop, só ali entendi a importância do Emicida não apenas como símbolo de uma identidade periférica, mas como porta-voz daqueles que ninguém mais escuta. A ode libertária coletiva continuou com os primeiros versos de “Dedo na Ferida”. Qual jovem negro e pobre nunca quis mandar, a plenos pulmões e com dedo do meio em riste, a polícia e os políticos se fuderem? A música – e que se danem os críticos de plantão a tudo o que é popular – é redenção comunitária.

Vários dos policiais que faziam a segurança do local, no entanto, tinham participado da desocupação da comunidade e sentiram-se pessoalmente feridos. A impressão de quem estava nos bastidores foi que o suposto desacato era mais pretexto que motivo. Começou uma extensa e tensa negociação. De um lado, a PM dava mostras de que estava irredutível, do outro, a organização do evento apresentava argumentos legais a favor da liberdade de expressão e atentava para o fato da repercussão que essa prisão traria.

PAUSA PARA MOMENTO MOBILIZAÇÃO: Um pouco antes do show acabar, desesperada com a situação, eu liguei para o Rafael Barros que me colocou em contato com o Joviano, das Brigadas Populares. A partir daí, várias pessoas começaram a me ligar. Do outro lado da linha, solidariedade e instruções de como agir. Foi aconchegante e mágico descobrir que existe uma eficiente rede do bem. Foi Joviano quem mandou o advogado que, brilhantemente, intermediou toda a situação. Diante de cerca de trinta policiais de colete e armados, eu me senti forte.

Foi da polícia que partiu a sugestão: Emicida não seria preso caso se retratasse no palco. Como disse antes, Emicida não queria ser preso. Queria ir para o hotel, descansar, tomar banho, quem sabe ligar para a sua mãe. Ele estava nitidamente assustado, mas nem titubeou em rejeitar a possibilidade de retratação. Poucas são as pessoas com quem a PM quer negociar e menos ainda aquelas que, de peito aberto e cabeça erguida, dizem “não”. Ali, eu também entendi que não se chega à posição de ídolo e de porta-voz traindo seu público e, principalmente, seus ideais. Fomos todos para a delegacia.

Desse ponto em diante, a história está nos jornais, muitas vezes distorcida. Vale dizer que as pessoas da Eliana Silva – que foram para a porta da delegacia prestar solidariedade ao rapper – continuam ao relento.

Alguns amigos e até desconhecidos me dizem que espero algo que nunca vai acontecer, meio naquela de: “o mundo é assim mesmo”. Essas pessoas, na verdade, me conhecem pouco. O que desejo está muitíssimo além do que elas imaginam. O mundo no qual eu quero viver prescinde de leis para que exista justiça. Esperar que a polícia aja em conformidade com as leis, de forma ética, nunca movida por interesses pessoais, protegendo os mais fracos e evitando o uso de violência não é utopia. É o mínimo.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Os vagabundos, eles e a PM


“Vagabundo”, pensou a Mulher que viu Fernando sendo abordado pela polícia. “Vagabundos”, foi o mesmo que pensou o Senhor que passou por ali a tempo de assistir Fernando, Joviano e Rafael serem algemados. “Vagabundos”, completou baixinho um rapaz que viu os três no camburão da PM.  A Mulher, o Senhor e o Rapaz não conhecem Fernando, Joviano ou Rafael. Eles nem imaginam que eles foram presos, intimidados e agredidos quando defendiam valores que lhes são tão caros: a justiça, a liberdade, a não-violência. 

Agora, pasmem, se soubessem, em nada mudaria o julgamento apressado que fizeram. Isso porque, a Mulher, o Senhor e o Rapaz confiam na polícia. E eles têm razões de sobra pra isso. A Polícia Militar brasileira foi criada com o objetivo único de proteger essa Mulher, esse Senhor e esse Rapaz. O sanguinário exército fardado existe para servir às elite (que, por motivos ideológicos, nunca mais conjugarei) e à classe merda. Missão prioritária comando Delta: deixar tudo o que pode abalar o status quo controlado! Controle à base de cassetete, violações dos direitos humanos e arbitrariedades. Braço armado a serviço da ideologia que prega: tudo deve ser como está. Cada um no seu quadrado, principalmente, preto e pobre. 

PAUSA PARA A AÇÃO MAIS EFICAZ DA PM: O instrumento de controle social mais eficaz exercido por essa instituição, altamente tecnológico, é a violação cotidiana da dignidade de quem é preto e pobre. Então, camarada, se você é preto e pobre, se você é só preto ou só pobre, ou se você, por algum acaso, acha que preto e pobre não deve ser espancado por ser preto e pobre: cuidado! A PM vai te pegar. Ela está no seu encalço, esperando na esquina da sua casa, no ônibus que você pega, no bar, na praça, na blitz (“esse carro é seu mesmo, vagabundo?”). 

Nessa sociedade policialesca – que é mais que um Estado policialesco – não cabem questionamentos, chamados “desacatos”, e muito menos pedidos de justiça: “grave perturbação da ordem”. Foram o que fizeram Fernando, Joviano e Rafael: questionaram e pediram justiça. “Vagabundos” repetem, após esse esclarecimento, como já tínhamos previsto, a Mulher, o Senhor e o Rapaz. Em coro, gritam: “bem que mereceram. Se tomaram, é porque mereceram”. 

Fico com náuseas, vontade de correr, sumir, dizer: alô mundo, já deu pra mim. Fui! Sinto cada vez mais que não sirvo para viver nesse lugar no qual a Mulher, o Senhor e o Rapaz são a maioria massacrante. E teve um dia em que esse sentimento estava me tomando e que a Milene disse mais ou menos assim: "mas somos poucos. Um que desiste já é muito" (Milene sempre me arrebata com sua coragem, sua vontade de defender os mais fracos, de lutar pelo que é justo. E sempre fico com vergonha porque tenho bem menos fibra, disposição, compaixão e saco. Sou egoísta no último grau quando estou com Milene). Hoje, como Milene não veio impedir que eu depusesse minhas acanhadas, supérfluas e medrosas armas, tive que resistir por conta própria. 

“Não pise na grama” me causou um profundo horror. Mas eu ainda acredito. Mesmo com a Mulher, o Senhor e o Rapaz debochando de mim e de todas as pessoas de bem que eu conheço, mesmo assim, eu ainda acredito. Mesmo quando eu quero desistir e mandar tudo pra puta que pariu, eu ainda acredito. E hoje, um trecho da nota do Joviano fez às vezes de Milene. Ele dizia assim: 

“Não descansaremos até que os agentes públicos diretamente envolvidos, o Município de Belo Horizonte e o Estado de Minas Gerais sejam responsabilizados civil e penalmente. Mais do que isso, não descansaremos enquanto houver cercas nesta cidade, pois preferimos lutar a perder nossa dignidade”.

Rá! Mulher, Senhor e Rapaz, atenção: somos poucos, mas fazemos um barulho danado!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Radical

Que tirolesa, bungee jumping, asa delta que nada!
Namorar é esporte radical.
Escolher, se entregar, se abrir.
Conhecer a família do outro, os amigos, as manias.
Correr o risco de ser você mesmo.
Acordar ao lado, sem maquiagem e zero de dignidade.
Aguentar o mau-humor e as indiossincrasias.
Despir-se da roupa e da perfeição.
Aceitar e compartilhar.
Nada mais rebelde, revolucionário, transformador e transgressor que amar.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Viagem egocêntrica da madrugada

Não é de hoje e nem de agora (não, não achei redundante) que me sinto estranha. Acho que sempre me senti estranha, como se fosse uma espectadora de minha própria vida. A pessoa que trabalha nesse trabalho, que namora esse namorado, que é amiga desses amigos ou parente desses parentes, não sou eu, mas uma projeção holográfica - de ultíssima geração – de mim. Eu mesma, sem tecnologia ou artifício, só existo em mim, dentro de mim, entranhada em mim, escondida em peles, ossos e tripas (já reparou que são sempre três itens?).

Importante anotar nos anais desse espaço que não se trata de uma coisa mística do tipo “eu flutuo e me vejo fora do meu corpo”. Tampouco de uma adoção boteco-filosófica da corrente idealista. A parada é sensorial. Momento revelação da madrugada (está de madrugada): eu não sinto que eu sou esse eu que se relaciona e vive, mas um eu que só se relaciona consigo mesmo, no caso, eu. “Fôda-se!”, retruca a humanidade. “Fôda-se seu inseto maluco!”. OK, entendo (mas nunca me comporto de acordo) a insignificância de minha crise de identidade, mas, dentro do meu micro-pessoal-e-intransferível-cosmos (assumam!, é o único que verdadeiramente existe) essa crise pulsa, pulsa, pulsa. Tal qual a sua necessidade vital de comprar uma moto ou de viajar para a Tailândia. Talvez bem mais do que isso porque, porra!, eu sou eu todos os dias e não é possível que uma pessoa pense 24h na merda da moto que ainda não conseguiu comprar .

Existem alguns momentos de rara felicidade – não alegria, que me sobra –, que para mim significa conseguir desligar a minha não-existência-real. Não se trata de ausência de consciência, mas de uma consciência extrema, límpida e serena. Lembro-me de um deles. Eu tinha treze, quatorze anos e fui a uma boate playba de Belo Horizonte (...)

Interrupção para fluxo de pensamento: Tenho quase certeza de que fui uma adolescente playba, mesmo sendo estranha (o que é, absolutamente, estranho, convenhamos). Os estranhos não são playbas, são excluídos do sistema social mais cruel já inventado: a escola. Eu, no entanto, como mestre jedi da tecnologia de sair de mim mesma e me adaptar holograficamente ao mundo (sou falsa? hipócrita? sobrevivente? esperta?), nunca fui excluída. Por muito tempo, inclusive, mesmo os mais próximos não desconfiavam tratar-se de uma pessoa estranha, que assistia escondida à Guerra nas Estrelas e repetia em frente ao espelho: “Luke, I’m your father!”. Isso também não fazia de mim uma nerd enrustida, que sabia tudo sobre cinema de ficção e RPG (eu só gostava de imitar o Darth Vader). Eu não era nada, apenas uma holografia que não se deixava excluir. Dentro de mim, eu tinha o mundo.

(...) então, eu tô lá na boate playba, quando juizado de menores em Beagá era só terrorismo de seguranças, e um amigo me chamou pra dançar. Ele me apertou com força e deu um beijo no meu pescoço. Eu gostei tanto que sai de perto como fazem as adolescentes inseguras que não sabem o que está acontecendo. E ai quando fui ao banheiro percebi que a minha calcinha estava molhada. Esse momento foi, com o perdão do trocadilho: “cara, que porra é essa?”. E então eu entendi uma porrada de coisa que ninguém nunca tinha me explicado e fiquei me sentindo consciente. Nesses raros momentos, eu saio de mim e sou eu mesma a holografia, o que faz com que a holografia não seja holografia. Eu disse: ultíssima geração.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Novos eternos dilemas da classe merda brasileira

A classe merda brasileira está com tudo e não está prosa. Não bastassem as taxas elevadíssimas de impostos e a corrupção desenfreada para alegrar os animados bate papos classemerdistas, os pobres desse país resolveram sair da senzala.

Se antes debochar do ex-presidente sem curso superior e dedo mindinho esquerdo era o hours concurs do fim de tarde na chopperia do shopping, nada hoje é páreo para a indignação com a empregada doméstica que virou diarista. "Não se fazem mais empregadas domésticas como antigamente", reclamam nos salões. E não se fazem mesmo. Onde estão as domésticas caladas, cordatas e mal remuneradas? Sumiram junto com o amor pela família que tanto fez por elas. Agora, são só negócios e classe merda que é classe merda faz negócios, mas acha que o amor é importante quando se trata de doméstica. E ai não dá pra amar a doméstica que quer só ganhar bem e ter um horário digno de trabalho. "Mesmo quando a gente ajuda o filho dela que tá doente, mesmo assim, a danada quer ganhar bem e ter um horário digno de trabalho!".

E a raiva só aumenta. Porque os pobres quando resolveram roubar da classe merda os aeroportos, a TV de plasma, Buenos Aires e Miami, roubaram também a organização do Brasil em classes que se diferenciam pelo poder de consumo. Quando o pedreiro usa Nike e o porteiro compra um Playstation 3 para o seu filho, o país perde sua identidade fundante. É o caos generalizado! E classe merda não quer apenas ver realizado o sonho da casa própria, quer organização e estabilidade. Núcleo milionário onde crimes não solucionados ocorrem, núcleo classe merda com tramas conflituosas, casamentos e grávidas sorridentes e núcleo pobre com alegria de viver. "Será que até as novelas irão mudar?"

"Já estão no Facebook e agora pretendem avançar para o Instangram!", pensa o classe merda cool, com seu pullover xadrez e óculos quadrado de aro grosso, enquanto roga por piedade: "deixem, ao menos, a Apple em paz!". Mas não tem jeito. Os brasileiros pobres estão cada vez menos pobres brasileiros. Incontroláveis, insaciáveis e exigentes, eles avançam: abram alas para a orkutização do Brasil!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Trocamos

Trocamos.
Eu era ele e ele era eu.
Tinha diabo amando freira,
Palhaço, mágico e monstro.
Tinha vaca e alegria.
Tinha velhinha na janela
E banda no chão.
Tinha bigode, peruca e corneta.
Trocamos.
Ele era eu e eu era ele.
E trocados
Éramos muito nós dois.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Rompimento

Quero deixar-te ir.
Libertar-me de ti.
Libertar-te de mim.
Romper, rasgar, partir.
Partida, serei fim.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Tico Tico Serra Copo

Era domingo e era folia.

Um apaixonado Tico Tico Serra Copo declarou aos berros, em alto e boníssimo som, o amor à sua linda e decadente musa: a cidade.

E o grito desse parkour-psicodélico ecoou.

Expressão máxima de uma paixão tão livre que se libertou do erótico, mas não do encantamento. Encantados, seguimos Tico Tico, ao som do rei do país das bananas.

É a festa da nostalgia, a bater palmas em portões brancos. Dos braços abertos no adeus à Lagoinha.

Na insana busca do porto, do sentido e do bar, a alegria ressuscitada pediu passagem.

Era carnaval, no pé, na rua e na alma.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Vestir a camisa

Vestir a camisa não à toa é a expressão utilizada como sinônimo de engajamento, comprometimento com uma causa. As roupas que usamos ,assim como as palavras que escolhemos e os lugares que frequentamos, são algumas marcas visíveis de nossa identidade. E camisa é uma marca e tanto: na frente, no alto, no peito. É com a camisa (e não com a calça) que declaramos o amor ao time, ao partido político, ao trio elétrico ou ao bloco que acompanhamos. Portanto seres humanos outdoors que somos, a propagar ideologias, gostos e posições, mesmo quando vestidos com a mais singela camisa lisa temos que ficar atentos em qual lugar esse pedaço nada inocente de pano nos coloca. E você? Quais camisas anda vestindo?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Porque é carnaval

Porque é Carnaval,
Deveríamos sair às ruas,
Brincar com os foliões,
Jogar-lhes confete e serpetina,
Andar ao lado da bateria,
E, não só pra completar a rima:
Pular de alegria,
Em plena luz do dia.

Porque é Carnaval,
Deveríamos andar de mãos dadas,
Dançar junto,
Tirar a máscara para beijar,
Decorar marchinha,
E, não só pra completar a rima:
Gritar bem alto,
“Essa paixão é minha”.

Porque é Carnaval
Deveríamos passear, namorar,
Tomar banho de chuva,
Visitar amigos,
Beber, fumar,
E, não só pra completar a rima:
Esquecer de voltar.

Porque é Carnaval
Deveríamos,
Para variar,
Fantasiarmos-nos de realidade.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Doação

É choro que não tem lágrima. Lágrima represada que aperta. Aperto no peito que sufoca. Sufoco que dá vontade de gritar. Grito contido de quem perdeu o ar.

Hoje estou doando angústia.