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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Igual

O mundo está igual. Incrivelmente o mesmo. A jabuticabeira não se recusou a dar jabuticabas e as plantas do jardim derramaram-se em flores com a chegada da primavera. Todos os dias, o sol nasce no nascente e se põe no poente. Sem rebelião. Sem questionamentos. Os passarinhos continuam cantando, até mesmo as rolinhas marrons do quintal. A família também está igual: com brigas, pazes, risadas, almoços e aniversários. Sim. As pessoas continuam fazendo aniversário. É de se estranhar, eu sei, mas o tempo não parou.

E eu? Acordo e durmo diariamente. Encontro meus amigos, choro, assito filmes e me divirto. Almoço e janto. Sabe que até trabalho? Trabalho, amo e escrevo. Minhas roupas e meus móveis ainda são os mesmos. São os mesmos os meus discos e os meus livros. É o mesmo o dia em que a faxineira vem arrumar a casa.

Às vezes, a permanência me dá um susto. Custo a acreditar que você não existe mais e que, mesmo assim, o mundo, a jabuticabeira, o tempo, os passarinhos, o sol, as flores, os móveis, a família e eu continuamos. Inalterada e resoluta, a vida segue.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Semana

Joana comprou apartamento. Casou. Thiago me chamou no skype e aplacou minha saudade de melhor amigo. Gargalhou. Matheus comprou camisa preta para ir ao show do Guns N´ Roses. Desabrochou. Maria leu o blog. Revoltou. Carol colocou aparelho. Reclamou. Leo me chamou de chata e depois disse que me amava. Abraçou. Didi me chamou pra almoçar. Chorou. Papai me deu um sapato. Comprou. Mariana mandou o e-flyer da empresa. Arrasou. A cliente me ligou cobrando o trabalho. Chateou. E tudo foi tão diferente e ao mesmo tempo tão igual nesta semana. Passou.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O Menino

Para o dia do amigo, um textinho antigo que escrevi pensando nos meus queridos amigos e em seus meninos:

Dentro de mim mora um menino. Não me refiro à lembrança tenra da aurora habitando o meu coração. Este vive nas minhas entranhas, mais ou menos entre o útero e o estômago. Trata-se de um moleque daqueles bem levados e sardentos.

O menino que em mim mora é do tipo que leva a mãe a comentar com as amigas: “não sei mais o que faço com esse menino”. É um menino de boletim vermelho e bochechas grandes, calças curtas e idéias mirabolantes, que perturbam a professora e a vizinha.

Ainda não consegui descobrir qual a fórmula para despertá-lo, mas pressinto quando ele irá surgir e abalar minha imagem de mulher sensata. Desconfio que ele consegue enxergar pelo meu umbigo e, ao se deparar com uma travessura irresistível, age sem que eu nada possa fazer.

Em diversas ocasiões, já tentei me explicar: “Olha. Não fui em quem disse isso. É que dentro de mim mora um menino muito mal-criado. Foi ele quem fez esse comentário totalmente inapropriado. Eu seria incapaz”. Nunca houve, porém, um ouvinte ofendido que acreditasse em mim. São poucas as pessoas que servem de morada para um menino.

Eu consigo identificar quem também tem um menino desses incorrigíveis dentro de si. Na verdade, é o meu menino (digo meu, mas não o comprei. Foi ele quem me escolheu) que reconhece e sussurra. “Tá vendo aquela pessoa? Ela também tem um menino dentro dela. E digo mais: ele é uma peste. Podemos ficar amigos?”. Eu resisto. Mas ele insiste tanto... Acabo cedendo. Sempre nasceram aí, amizades loucas, incondicionais e eternas.

domingo, 19 de julho de 2009

Em Milão

Tenho uma tia que é minha relações públicas (não oficialmente porque RP precisa de diploma). Ela divulgou esse endereço pra todos os seus contatos e eu morri de vergonha. Sabe a tia que te chama na sala cheia de visitas e diz: “meu sobrinho dança que é uma beleza, querem ver? Dança Jaime. Dança pra titia ver”? Mas é aquela vergonha meio orgulhosa porque quem tem blog é igual a quem dança: aparecido.

Essa minha tia é chique que dói (acho “que dói” muito bom. “Que dói” é o “pra caralho” singelo) e foi passar o seu aniversário em Paris. Mandou um e-mail para as mulheres da família relembrando a viagem que fizemos juntas para a Europa. “A primeira vez a gente nunca esquece”. Além de descortinar para mim, menina disneylândia, um mundo novo (mais conhecido como “velho mundo”), a Europa me consagrou na família como a “rainha das manotas de viagens”. Mas como esse espaço é meu, aproveito aqui para me vingar da titia contando um fora dela:

Titia pára em uma barraquinha que vendia chá gelado em Milão. Os sabores: limão e laranja. Ela pede um. O vendedor pergunta “lemon?”. Ela, mais do que depressa: “No. Brasileira”.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Queridos Amigos


Recebi por e-mail uma pesquisa que dizia que em sete anos as pessoas substituem 50% de seus amigos. Me senti estranha. Tenho amigo de longa data, de média data e de curta data. Tenho amigo dos tempos da escola, da faculdade e que fiz no(s) trabalho(s). Tenho amigo-irmão, amigo-demais e só-amigo-mesmo. Tenho amigo que encontro quase todo dia, que encontro semanalmente, mensalmente e quando dá. Tenho até amigo que nunca encontro. Tenho amigo da família e amigo que parece família. Tenho amigo histórico – os clássicos! – amigo por afinidade e amigo só por amizade. Tenho amigo instantâneo, desses que a amizade surgiu na primeira conversa, e amigo que, de cara, eu nem fui com a cara. Tenho amigo de amigo, amigo pra todas as horas, amigo unha e carne e até amigo da onça, mas não tenho ex-amigo (quer dizer, talvez um ou dois). Quando li a pesquisa, me senti estranha, mas profundamente feliz.

Aos meus queridos amigos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Vou estar me inscrevendo


De um lado, a turma do "altos índices de violência, trânsito infernal e caos urbano". Do outro, o coro do "melhores restaurantes, diversas opções culturais e infinitas oportunidades de negócios". No meio, São Paulo fazendo jus aos seus superlativos.

Desde janeiro, quem está no segundo grupo tem mais um argumento infalível à favor da paulicéia desvairada: os moradores de São Paulo podem se cadastrar para nunca mais - repito: nunca mais - receberem ligações de telemarketing. A bênção é estadual e se dá por meio "Cadastro Estadual para Bloqueio do Recebimento de Ligações de Telemar", uma iniciativa do Procon-SP.

A notícia é velha, mas é que minha irritação com o pessoal do gerundismo chegou ao limite. No início do ano, cancelei a assinatura de uma revista. Foi o bastante para uma mocinha telemarketeira anotar meu nome e telefone em um "post it", colar na tela do seu computador e me ligar dia sim-dia não. Sempre às nove da manhã.

Ao contrário do esperado por ela - me convencer a renovar a assinatura - eu tomei irque da revista. É a contra-propaganda. Sonho com o dia em que conduzirei uma marcha em direção à editora para queimarmos - eu e meus companheiros igualmente ultrajados - exemplares da publicação. Sonho mais ainda com o dia em que poderei, assim como paulistas e paulistanos, me cadastrar em programa similar. Farei como quem compra ingressos para show da Madonna: madrugarei na internet para estar sendo a primeira a estar me inscrevendo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Maria Bandinha

Tem tempos que trabalho com cultura e, só agora, me dei conta da existência de uma criatura ainda pior do que o produtor cultural: é a Maria Bandinha. Maria Bandinha é aquela menina que faz o impossível para conseguir o acesso ao camarim e, uma vez lá, porta-se como se fosse íntima de todos. Ela sabe todas as músicas e canta fervorosamente enquanto tira fotos frenéticas. Mas ela não é uma fã. Não se engane. Para ela não basta CDs, fotos e autógrafos. O que ela quer é ser a namorada de um dos músicos, de preferência o vocalista (que ela insiste em chamar de líder da banda). Ela quer ser importante, querida e amada, e quase sempre se refere aos integrantes do grupo como “os meninos”. Se o vocalista é o alvo preferencial, dificilmente alcançado, os outros também servem e aí ela vai passando por todos os instrumentos, como também de uma banda para outra. O esquisitão ignorado na festa de repente sobe no palco e... pronto! O fascínio toma conta e ele passa a ter “um charme todo especial”. É a atração por quem está em evidência, mesmo que momentânea, verificada em muitas espécies animais.

Já eu, sempre gostei mais da turma dos bastidores do que dos holofotes. Na coxia, encontrei grandes amigos e um grande amor.

Uma semana sem escrever aqui. Uma semana escrevendo muito lá: http://www.conexaovivo.com.br/

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Obama toma banho


Obama toma banho. Tenho certeza disso. Aquela cara de engomadinho não me engana: ele toma banho frequentemente. Pode ser até duas vezes ao dia. O Bush tenho lá minhas dúvidas, mas o Obama é, definitivamente, uma pessoa que toma banho.

Será que quando o Obama está pelado, sozinho, se lavando como todo mundo se lava - uns mais outros menos -, naquele momento profundamente íntimo, ele não pensa: onde eu fui amarrar minha égua?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

SAP


Carol mandou um e-mail dando notícias de sua primeira viagem a Nova Iorque. “As pessoas, os locais, os sons. Tudo é muito nova-iorquino. Nova Iorque é muito nova-iorquina”. O leitor desatento logo pensará que ela foi redundante, mas se engana.
Se o e-mail tivesse sido escrito por uma pessoa menos preocupada em colocar poesia em cada pequeno detalhe, seria dessa forma: “Estou em êxtase. Nova Iorque atendeu totalmente às minhas expectativas. A cidade é exatamente como eu esperava, sonhava e desejava que ela fosse. A viagem está valendo muito à pena”. É isso. Pessoas como Carol às vezes precisam de tecla SAP.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Casal


Por que você está triste?

Não estou triste.

Então por que você está chorando?

Porque você brigou comigo.

Mas eu não briguei com você.

É verdade.Você não brigou.

Então por que você está triste?

Não estou triste.

Então por que você está chorando?

Ah, estou em um dia assim chorosa. Chorando por chorar. Chorando pouquinho e baixinho só pra aliviar dos dias que não chorei. Tem tanto tempo que não choro!

Isso não faz sentido. Por que você não quer me dizer o motivo?

Porque não existe. É um choro sem tristeza e sem alegria. Choro de entrega, choro de caminhada, choro de existir.

Você está de TPM?

Não.


Ela enxuga as lágrimas e desiste de tentar explicar. Ele continua olhando desconfiado e desiste de tentar entender.

sábado, 4 de abril de 2009

O homem do discurso


Deixo aqui minha homenagem a Márcio Moreira Alves que, com coragem e deboche, fez a “gente careta e covarde” da ditadura se borrar tanto que o AI-5 foi proclamado. Um exemplo para todas as pessoas que diante dos abusos cometidos pelos fortes contra os fracos prefere não se envolver.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Bem-vinda

Da porta de casa, escuto a notícia: “eles vão ter uma menina”.

- Coitado! – a exclamação melancólica parece sair da boca da futura bisavó;
- Não estou triste. Só decepcionado – ameniza uma voz masculina;
- Já eu fui competente. Tive um menino – enaltece outra voz masculina um pouco mais alegre;

Apesar dos sons das vozes me serem bem familiares, corro para a sala com a esperança de encontrar a TV ligada na novela clone de O Clone. Infelizmente, constato que o diálogo absurdo não foi pronunciado pelos indianos caricatos de Glória Perez.

De repente, sou tomada de uma sensação de terror e me vem à memória um filme B da década de 80 no qual acontece não-sei-o-quê e as personagens ficam presas em um passado sombrio.

Corro esbaforida, sinto meu coração palpitando, a garganta seca. Abro o jornal e grito aliviada: 2009! Estamos em 2009!

Relembro o diálogo e o alívio, subitamente, se transforma em perplexidade.

A menina que está por vir logo perceberá que, por mais que as aparências enganem, na sua família são as mulheres que mandam. Algumas com jeito, outras com falta de jeito, conseguem que os homens que as rodeiam façam tudo, ou quase tudo, do jeito delas. Ela saberá que, nessa família, teve uma mulher de olhos azuis a quem todos obedeciam e que, hoje, são as sete mulheres (com ela oito) que ditam as regras. Se um dia souber do diálogo acima, olhará para o seu pai babão e que por ela tudo faz e não entenderá nada. Estando nessa família, essa menina vai logo aprender que machismo merece deboche, que as mulheres não são iguais aos homens (e nem melhores, e nem piores) e que são justamente as diferenças que tornam tudo bem mais divertido.

Esse post merece o filme belíssimo que a Lápis Raro fez para o Dia Internacional da Mulher:

domingo, 22 de março de 2009

Diferenças


Judeus, palestinos, cristãos, muçulmanos, hindus, umbandistas, homossexual, heterossexual, bissexual, pansexual, metrosexual, assexual, negros, brancos, índios, pardos, amarelos, ingleses, chineses, brasileiros, alemães, mulheres, homens, velhos, esquerdistas, direitistas, pobres, ricos e emergentes.

E depois de tudo, a única diferenciação que faz realmente sentido é aquela entre as pessoas que comem trivialmente um biscoito recheado e as que se reservam ao direito de retirar com os dentes a sua primeira camada, raspar seu recheio e, só então, engolir o restante.

sábado, 21 de março de 2009

Dá pra fazer

Tem coisas que só o horário eleitoral gratuito faz por você. Em BH, na última campanha pela prefeitura, foi o bordão "dá pra fazer". Não consigo mais falar que algo é possível sem recorrer a ele e, acredito, muitos belohorizontinos sofrem desse mal.

Eu amo propaganda (bem feita, claro!). Como
há três posts abaixo eu disse que o Ministério da Saúde só faz propaganda "desconectada" tentando incentivar o uso da camisinha (desconectada, nesse caso, é sinônimo de "héin?"), venho aqui provar o meu argumento com propagandas fantásicas sobre o tema garimpadas no youtube (algumas já foram mais do que disparadas por e-mail).

Propaganda boa de camisinha. Isso dá pra fazer.








terça-feira, 17 de março de 2009

Balzaquianas: a pesquisa

Intrigada com o novo marcador que inventei para o blog - balzaquianas - fui pesquisar o que existe sobre o tema na internet. 15 mil resultados no google.

Resultado 1: "Há quem empregue a palavra balzaquiana de forma pejorativa e até negativa. Mas, na realidade, é com 30 anos que as mulheres chegam ao seu ápice: mais maduras, realistas e vividas, elas esbanjam sensualidade e realização". Uma pessoa lê isso, se olha no espelho e pensa: fudeu! (quem se choca com palavrões substitua aqui por "carambolas"). Considerando que tenho 28 anos e não me sinto vivida e nem esbanjando sensualidade e realização, nos próximos dois anos passarei por uma transformação dráaaaastica. São 730 dias pra me encaixar (perceberam que estou com mania de números? Me sentindo o IBGE).

Resultado 2: "Busco através deste blog socializar experiências, saberes, opiniões e curiosidades acerca do universo feminino, nos seus mais variados aspectos". Esse eu pulo. Desculpa colega blogueira, mas ainda não estou pronta para esse tipo de informação.

Resultado 3: "...Honoré de Balzac retrata os conflitos de Júlia d`Àiglemont, uma mulher mal casada, que tem consciência dos problemas que envolvem um matrimônio e que se vê esmagada pelos tabus da sociedade..." Cadê as pessoas que não acreditam em coincidências para dizerem oooooohhhhh? A mulher é minha xará!

Sou Júlia. Me sinto esmagada pelos tabus da sociedade (cada época com seu tabu e nem venham me perguntar quais tabus me esmagam porque a internet não é privê). Só falta eu casar e tomar consciência dos problemas que envolvem um matrimônio!

Resolvo interromper a busca (nota mental: quando fizer uma pesquisa, esteja preparado para os resultados).

Lá vem a noiva


Cheguei à fase dos casamentos. É difícil admitir, mas é a mais pura verdade. Ano passado, dois amigos casaram. Achei que era um saldo bom e que permaneceria assim, mas, neste ano, fui a um casamento e recebi convites de outros quatro. Se continuar nesse ritmo, quando o ano terminar terei ido a 20 casamentos o que significa um aumento de 1.000%. Considerando que existem cerca de 30 pessoas a quem posso chamar de amigo, no meio de 2010 todos os meus amigos já terão casado!

Sim. Sei que estou sendo alarmista, mas é difícil constatar o que a desaceleração do meu metabolismo já indicava. A idade contada em festas: as de 15 anos, as de formatura, os casamentos (onde estou). O que vem depois? Bodas?

No carro, pensando em qual vestido usar no casamento da Cris, coloco o CD do Chico e música vai, música vem, chega “Flor da Idade”. Só pode ser perseguição. A música que fala “aí a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor...”, me mostrando que envelhecer é ver os “primeiros” serem cada vez mais raros. O que fazemos que é novidade? Não vale comer em restaurante novo. Tô falando daquela novidade que de tão inédita faz a nossa barriga doer de ansiedade. Pois é... Pensando bem, acho que casar deve ser uma novidade bem grande.

Cris e Digo, desejo a vocês tolerância e ternura

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pause


Tive um final de semana de boas companhias, bons passeios, muitas risadas e um desligamento necessário do resto do mundo. Durante 48 horas eu não pensei em contas, clientes, ligar pra fulano ou ciclano. Soube por alto as notícias, mas só ontem me interei de Kléber Barbosa da Silva e seu suicídio-infanticídio aéreo e dos últimos números da crise internacional.

Às vezes, é necessário nos colocar, dois dias que seja, em pause. Permitir-se não estar conectado, informado e antenado. Não se trata de uma posição estúpida contra a tecnologia (amo tanto meu laptop e ipod que não preciso de animais de estimação para alegrar a casa), mas de uma constatação que precisamos, em alguns momentos, parar.

O estresse (existe em português) como doença já virou uma questão de saúde pública. Seguem sugestões de campanhas para o Ministério da Saúde:


“Não leia e-mails aos domingos”
“Antes de dormir, desligue o celular”

“Tire férias”

“Não leve jornal para a praia”

Podem ficar mais interessantes do que as “desconectadas” campanhas pelo uso da camisinha.


OBS: Marina reclamou do post Única, dizendo que sempre lê o blog. Agora, já são duas.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Em algum lugar do Rio


Ontem, uma amiga alemã foi me visitar. Ela adora o Brasil, mas se sente um pouco deslocada e estranha a cultura local. É a perfeita descrição do que sinto quando estou no Rio. Aqui, sou alemã.

É que mineiros e cariocas são muito diferentes. As montanhas cuidaram para que os primeiros fossem reservados, fechados. O mar, fez de quem nasceu por essas bandas expansivo, "esparramado". Não existe um problema, mas um estranhamento.

Carioca fala o que pensa. Mineiro guarda. Guarda tanto que vira "ite": sinusite, bronquite, faringite... e até coisa bem pior. Sinceridade para mineiro é desrespeito. O dia em que você ver um mineiro fazendo abertamente uma crítica ou reclamação, separa que é briga. Mineiro não reclama nem com fura-fila. Já carioca fala de um jeito que, aos nossos ouvidos, é briga mesmo. Mas quase sempre não é.

Finalizo a filosofia de butiquim por aqui porque tenho que aproveitar o mar.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Única


Tenho apenas uma leitora assídua: Maria. Não é a única pessoa que passa por aqui, como o contador aí do lado indica, mas é a única que sei que lê todos os posts (gente que gosta de escrever é tão metida que com uma leitora já fica se sentindo).

Ao ler o que eu escrevo, Maria me transforma em escritora (mediana que seja) e também me faz sentir que escrever aqui é uma grande responsabilidade. Fico culpada quando deixo o blog desatualizado. “Será que Maria já entrou?”.

Estou lendo “Campo Geral” de Guimarães Rosa que não precisa de mim. Se conseguisse escrever uma única linha roseana, talvez também não precisasse da Maria, mas eu não tenho essa ilusão. Se ficasse 80 anos tentando, perderia 80 anos e não sairia uma linha que seja.

Enquanto Maria me agüentar, serei escritora de uma única leitora. Quando Maria se cansar, esse blog não mais existirá.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Ao mestre, com carinho


Recebo o convite de formatura de um rapaz que já foi meu estagiário. Dentre os agradecimentos aos familiares e amigos de faculdade, encontro meu nome, ao lado de outras pessoas para quem ele trabalhou. “.... mestres e referência, para a vida inteira”. Engasgo emocionada. Ligo e agradeço, mas nem consigo me lembrar direito da rápida conversa ao telefone. Leio e releio o trecho, em um misto de vaidade, surpresa e vergonha. Sim, vergonha. Não consigo encontrar em minha memória um único momento que seja – uma dica, uma conversa, a correção de um trabalho – que demonstre a minha contribuição na transformação do ex-estagiário em profissional.

Diferente de mim quando comecei. Consigo sentir o cheiro e lembrar dos sons do meu primeiro dia de estágio, de tão ávida que é a memória em minha mente. O jornalista Acyr Benfica era o meu chefe e a nossa missão era cuidar da comunicação de um importante colégio. Acyr já tinha muitos anos de profissão e trabalhado de televisão a campanha política. Eu estava no terceiro período de faculdade e ainda não tinha entrado nas matérias específicas de jornalismo. Ele me informou que teríamos um evento, me passou as informações e solicitou um release. Eu sorri e disse que tudo bem. Estava ali, no primeiro dia de trabalho do primeiro estágio que tive na minha área e não sabia o que era release. Recorri à internet e descobri que release vinha de press release, ou seja, um texto para informar a imprensa de algum fato. Esclarecido o significado vinha o segundo passo: como escrever um release? Havia escrito somente cartas, contos e poesias e o que tinha aprendido na faculdade até então seria muito mais útil para um artigo sociológico. Fui no modelo de redação escolar mesmo: um parágrafo de introdução, dois de desenvolvimento e um de conclusão.

Pela cara do Acyr quando eu entreguei o trabalho, logo percebi que o resultado tinha sido um desastre. Ele sentou ao meu lado e disse “vamos refazer juntos?”. Ele refez. A cada corte ou substituição de palavras, uma explicação. Aprendi ali como fazer um release (algo que nunca me foi ensinado nos quatro anos de curso universitário). A grande lição que tive, no entanto, foi sobre o que é ser generoso com o conhecimento e ter paciência com quem ainda não sabe. Depois disso, trabalhei com vários outros excelentes profissionais, mas o Acyr, com certeza, é um “mestre e referência, para toda a vida”.

A propósito, o ex-estagiário mencionado me impressionou com a qualidade do primeiro release que escreveu, logo em seus primeiros dias de trabalho.

André: felicidades na formatura e em sua trajetória profissional.