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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Música de Ninar

Dorme,
Ó meu anjo lindo,
Que a noite vem vindo,
Quem vela sou eu.
*
Dorme,
E sonha comigo,
Ó meu grande amigo,
Quem vela sou eu.
*
Dorme,
Com riso na boca,
Que a noite é tão pouca,
Quem vela sou eu.
*
Antônio cantava essa música de ninar para sua neta. Quase trinta anos depois, ela cantarola baixinho sua melodia quando a escuridão da noite significa muito mais do que ausência de luz. Ao ninar-se com a música do avô, ela projeta sua alma para longe da solidão e das sombras, para um lugar na memória afetiva onde tudo é aconchego, proteção e amor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Procurando Luciana

Procurando Luciana é um blog onde uma pessoa busca, de forma sensível e linda, notícias sobre a irmã que está desaparecida. Divulgue!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Para Marina

Se Caymmi soubesse o quê hoje eu sei, não se aborrecia e nem se zangava com a pintura de Marina. Pois Marinas que são morenas vêm com blush de nascença, coloridas de fábrica.

E foi assim que veio essa daqui: cor-de-rosa (por isso, não provoque). Mede pouco mais de dois palmos e é a maior pessoa que já vi, capaz de preencher todos os espaços disponíveis e indisponíveis, alterar rotinas e horários, trocar o dia pela noite, pegar pela mão, de uma só vez, mamãe, papai, avós, titias... e deixar todos ali, à sua volta. “Parem de babar e me deixem dormir”.

Pra completar, o artista celeste que lindamente pintou Marina tratou de dar-lhe logo dois olhinhos brilhantes, tais quais os brinquinhos já ganhados. Seus olhos são da esperança o recado. Fitam-nos (sim vovó, eles fitam) como se dissessem: “ei, vocês que tanto choraram. Vocês que maldisseram os deuses e esqueceram que tudo é renovação, um eterno começar. Eis-me aqui”.

E assim, colorida, pequenina-grande e brilhante, Marina inunda nossa vida de amor.

domingo, 19 de julho de 2009

Em Milão

Tenho uma tia que é minha relações públicas (não oficialmente porque RP precisa de diploma). Ela divulgou esse endereço pra todos os seus contatos e eu morri de vergonha. Sabe a tia que te chama na sala cheia de visitas e diz: “meu sobrinho dança que é uma beleza, querem ver? Dança Jaime. Dança pra titia ver”? Mas é aquela vergonha meio orgulhosa porque quem tem blog é igual a quem dança: aparecido.

Essa minha tia é chique que dói (acho “que dói” muito bom. “Que dói” é o “pra caralho” singelo) e foi passar o seu aniversário em Paris. Mandou um e-mail para as mulheres da família relembrando a viagem que fizemos juntas para a Europa. “A primeira vez a gente nunca esquece”. Além de descortinar para mim, menina disneylândia, um mundo novo (mais conhecido como “velho mundo”), a Europa me consagrou na família como a “rainha das manotas de viagens”. Mas como esse espaço é meu, aproveito aqui para me vingar da titia contando um fora dela:

Titia pára em uma barraquinha que vendia chá gelado em Milão. Os sabores: limão e laranja. Ela pede um. O vendedor pergunta “lemon?”. Ela, mais do que depressa: “No. Brasileira”.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Com esnobar* e afeto

Nunca consegui gostar de um quibe como gostava do da vovó. Hoje, percebo que essa não era uma preferência meramente gastronômica. O quibe da vovó e tudo o mais que ela cozinhava – um amplo e delicioso cardápio árabe-brasileiro – vinha acompanhado de um ritual. Acordava aos finais de semana e logo percebia, pela atmosfera, que vovó estava na cozinha. Não era necessária a confirmação do olhar, pois toda a casa se entregava àquele momento.

Quase posso sentir as mãos delicadas, rápidas e levemente molhadas dando vida ao alimento, ver a toquinha azul usada para esconder os inconvenientes fios de cabelo e escutar o som baixinho da risada de rosto inteiro. A lembrança é tão nítida que a chega a ser um alento para a saudade que é, até hoje, dilacerante. Tenho medo de que ela se borre um dia.

Cozinhando, vovó demonstrava pela família todo o carinho que seus modos discretos escondiam. Se Sazón a descobrisse, fazia dela sua garota propaganda. A risada, a toquinha, as mãos... agora percebo que era tudo uma espécie de magia, feitiço mesmo. Tudo só com esnobar “que quibe árabe não tem essas bobagens que eles colocam aqui no Brasil”.

Nos domingos da minha infância, era quibe, primas e Trapalhões. Na adolescência da rua mais atraente que a casa, era o motivo do retorno: “almoça em casa hoje que vovó vai fazer quibe”. Acredito que nunca conseguirei gostar de um quibe como gostava do da vovó.
*esnobar é uma semente árabe

segunda-feira, 30 de março de 2009

Bem-vinda

Da porta de casa, escuto a notícia: “eles vão ter uma menina”.

- Coitado! – a exclamação melancólica parece sair da boca da futura bisavó;
- Não estou triste. Só decepcionado – ameniza uma voz masculina;
- Já eu fui competente. Tive um menino – enaltece outra voz masculina um pouco mais alegre;

Apesar dos sons das vozes me serem bem familiares, corro para a sala com a esperança de encontrar a TV ligada na novela clone de O Clone. Infelizmente, constato que o diálogo absurdo não foi pronunciado pelos indianos caricatos de Glória Perez.

De repente, sou tomada de uma sensação de terror e me vem à memória um filme B da década de 80 no qual acontece não-sei-o-quê e as personagens ficam presas em um passado sombrio.

Corro esbaforida, sinto meu coração palpitando, a garganta seca. Abro o jornal e grito aliviada: 2009! Estamos em 2009!

Relembro o diálogo e o alívio, subitamente, se transforma em perplexidade.

A menina que está por vir logo perceberá que, por mais que as aparências enganem, na sua família são as mulheres que mandam. Algumas com jeito, outras com falta de jeito, conseguem que os homens que as rodeiam façam tudo, ou quase tudo, do jeito delas. Ela saberá que, nessa família, teve uma mulher de olhos azuis a quem todos obedeciam e que, hoje, são as sete mulheres (com ela oito) que ditam as regras. Se um dia souber do diálogo acima, olhará para o seu pai babão e que por ela tudo faz e não entenderá nada. Estando nessa família, essa menina vai logo aprender que machismo merece deboche, que as mulheres não são iguais aos homens (e nem melhores, e nem piores) e que são justamente as diferenças que tornam tudo bem mais divertido.

Esse post merece o filme belíssimo que a Lápis Raro fez para o Dia Internacional da Mulher:

quarta-feira, 25 de março de 2009

Depois da Crise

De minha família paterna, herdei o péssimo e inútil hábito de pensar no que está por vir. Às vezes o que vai acontecer ocupa mais minha mente do que o que está acontecendo. Quando o pensamento é ruim, dizem que estou “sofrendo por antecedência”. Se é bom, estou “contando com o ovo no fiofó (adoro essa palavra. Pronunciá-la – fiofó – já me dá vontade de rir) da galinha”.

E, “futuróloga” que sou, já não agüento mais falar de crise – pacotes salva-vidas, ricos menos ricos, pobres mais pobres e manuais dos mais diversos tipos: como sobreviver em tempos de crise, dez coisas para a crise não pegar você, deixe a crise no vizinho. A própria crise gerando o mercado da crise. Enfim, quero saber o que será depois.

Qual impacto essa situação gerará na nossa sociedade? Já conseguiremos perceber mudanças ou precisaremos de um distanciamento histórico para notar as diferenças? Que análise farão as futuras gerações do que somos e do que nos tornaremos?

Enquanto o futuro não chega, faço o que não devo e sonho com ele. Seria imaginar uma forma de me preparar?

segunda-feira, 2 de março de 2009

Para Noah


Noah é Noé em português. Vamos combinar que Noé é o velhinho mais simpático dos personagens bíblicos. Salvava os bichinhos, construía a arca e não se importava de ser gozado pelos outros. Porque, cá pra nós, Noé foi gozado, né? Era só Noé começar com “Deus me mandou construir uma arca e colocar os animais...”, que todos caiam na gargalhada. Imagino se Noé teve um pingo de satisfação, um pinguinho que seja, aquela satisfação do “bem que eu avisei...”. Mas acho que não, Noé era do tipo bom. Mas Noah, aos ouvidos brasileiros, não parece um velhinho bondoso, mas um surfista bem jovem e bonitão das praias do Hawai. Daqueles que entram nos filmes para sofrer traições, se reerguer e ficar com a heroína. Vi um filme bem água com açúcar que tinha um Noah irresistível. Irresistível quando dito por uma mulher é: lindo, meio safado, mas bom moço. Aquele tipo cachorro vira lata carente e charmoso. E sendo o Noah, meu sobrinho, brasileiro por decendência e americano por nascença, só posso esperar que ele tenha a sabedoria de um velhinho simpático e a jovialidade cativante de um mocinho de filme.

Especial, com certeza, ele já é. Ao invés de “bebê pra lá”, “bebê pra cá”, na fatídica fase do sem nome e sem sexo, foi chamado de “nipote”. Nipote é a palavra italiana que serve tanto para sobrinho quanto para neto (mas acredito que não sirva para sobrinho-neto). E o apelido fez com que ele fosse uma figura muito mais presente do que se tivéssemos usado o frio, distante e comum “bebê”. Nipote participou de nossa viagem à Roma, comeu anchovas e tomou um susto danado quando eu resolvi passar mal em plena Citá di Vaticano. Mas especial não apenas no nome, mas no amor que todos sentimos. Já nasceu caindo nas profundezas do amor profundo que os pais sentem um pelo outro e, agora, mais ainda, no “todos por um”. E tem também as avós que se acotovelam pra ver quem está mais embevecida. Mudando o DDI, uma infinidade de avôs, adquirida pela estripulias casamenteiras da mãe do pai, fica tão orgulhosa que fica difícil saber: quem é o avô mesmo? Mas o nariz, que apesar de pequeno é grande, não mente... quer dizer, se os Valérios têm nariz grande, o que podemos dizer dos árabes e italianos? E assim, a cesta de amor só aumenta, com um tio que é tio só porque quer, assim como sempre quis ser irmão, mais tios, a bisavó que é também um pouco avó porque já foi também um pouco mãe, a tia-madrinha que já faz planos mirabolantes para todos os encontros que eles terão e consegue até sentir o bom cherinho de bebê pelas fotos que recebe por e-mail, os priminhos e o tio-padrinho que moram na terra do Obama mesmo e outros, vários outros. Acho que toda família pensa assim: ele é o mais amado e o mais bonito do mundo. Não nos furtem o clichê e o senso comum. Acredito tanto nisso, que acho que todas as outras estão erradas.

E por falar em Obama, que época que cismou em nascer esse menino. É o fim ou o começo? Quando vemos a carinha de Mr. Magoo, a linguinha de piriquito, essa coisinha pequena e linda que precisa de nós, conta com a nossa proteção e nada sabe do perigo, da fome, da guerra, da maldade, da bandalheira aí e aqui, não temos a menor dúvida: é o começo. Só pode ser o começo.

À Noah, para quando puder entender, da sua tia-madrinha.