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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Música de Ninar

Dorme,
Ó meu anjo lindo,
Que a noite vem vindo,
Quem vela sou eu.
*
Dorme,
E sonha comigo,
Ó meu grande amigo,
Quem vela sou eu.
*
Dorme,
Com riso na boca,
Que a noite é tão pouca,
Quem vela sou eu.
*
Antônio cantava essa música de ninar para sua neta. Quase trinta anos depois, ela cantarola baixinho sua melodia quando a escuridão da noite significa muito mais do que ausência de luz. Ao ninar-se com a música do avô, ela projeta sua alma para longe da solidão e das sombras, para um lugar na memória afetiva onde tudo é aconchego, proteção e amor.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Fundo do Baú

Recebida em 23 de outubro de 1992.

Julia,


Eu penso em seus doze anos,
e te imagino enfoguetada,
apagando suas doze velas,
e comandando a garotada.

Toda assim, saltitante e feliz!
Rindo aqui, cochichando ali, gritando lá.
Pensa ser a dona do seu nariz!
Vou cortar suas asas já, já!

E eu de longe a te observar,
filha minha, como tens crescido!
Quero com você comemorar,
escutar todo este alarido.

E de tanto imaginar a sua festa,
de tanto desejar estar aí,
vejo no meu prato que ainda resta,
um pedaço do kibe que comi.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Leite


Deve ser a lembrança guardada de um tempo em que ficávamos seguros e aconhegados no colo de nossa mãe. Lembrança de quando éramos felizes e alienados - felizmente alienados. Tempo em que comer e dormir era o que nos cabia e tínhamos quem nos alimentava e ninava. Provavelmente, vem daí a nossa ligação com o leite. Para minha avó, leite queimado era remédio de noites insones - para aquecer a garganta, cessando a tosse, ou a alma, cessando o soluço. Agora, que tanto a garganta quanto a alma doem, ardem e suplicam, quem me ama reconforta-me com leite. Leite é colo em sua forma líquida.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Beautiful

Quarta-série do ensino primário. Tenho minha primeira e única experiência como editora, redatora, revisora e ilustradora de um jornal. Chamava-se Beautiful, era escrito com canetinha hidrocor e xerocado no escritório do meu tio. O nome de salão de beleza de subúrbio era fruto dos conhecimentos recém adquiridos no cursinho de inglês (e da dominação imperialista ianque, claro).

Exemplo de imprensa marrom, Beautiful tinha tirinhas recortadas de revistinhas e publicadas sem autorização, piadas de gosto duvidoso e a esperadíssima sessão de fofocas. Nela, eu revelava, basicamente, quem gostava de quem, causando alvoroço na meninada (aliás, “alvoroço” é um nome ótimo pra revista de fofoca, né?). O jornal durou apenas três edições. A publicação acabou antes que eu perdesse todos os meus amigos ou apanhasse na saída.

Hoje, faço listas de coisas bizarras e dou minha opinião sobre o Sarney e a Juliana Paes em um blog lido por cinco pessoas. Nunca mais escrevi algo que causasse alvoroço.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Com esnobar* e afeto

Nunca consegui gostar de um quibe como gostava do da vovó. Hoje, percebo que essa não era uma preferência meramente gastronômica. O quibe da vovó e tudo o mais que ela cozinhava – um amplo e delicioso cardápio árabe-brasileiro – vinha acompanhado de um ritual. Acordava aos finais de semana e logo percebia, pela atmosfera, que vovó estava na cozinha. Não era necessária a confirmação do olhar, pois toda a casa se entregava àquele momento.

Quase posso sentir as mãos delicadas, rápidas e levemente molhadas dando vida ao alimento, ver a toquinha azul usada para esconder os inconvenientes fios de cabelo e escutar o som baixinho da risada de rosto inteiro. A lembrança é tão nítida que a chega a ser um alento para a saudade que é, até hoje, dilacerante. Tenho medo de que ela se borre um dia.

Cozinhando, vovó demonstrava pela família todo o carinho que seus modos discretos escondiam. Se Sazón a descobrisse, fazia dela sua garota propaganda. A risada, a toquinha, as mãos... agora percebo que era tudo uma espécie de magia, feitiço mesmo. Tudo só com esnobar “que quibe árabe não tem essas bobagens que eles colocam aqui no Brasil”.

Nos domingos da minha infância, era quibe, primas e Trapalhões. Na adolescência da rua mais atraente que a casa, era o motivo do retorno: “almoça em casa hoje que vovó vai fazer quibe”. Acredito que nunca conseguirei gostar de um quibe como gostava do da vovó.
*esnobar é uma semente árabe

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Coisas que coleciono

Tem quem colecione figurinhas, selos, latinhas, carros antigos e até namorados. Já eu coleciono três coisas: frases, propagandas e marcadores de livros. Não me servem pra nada mas, afinal, para que servem as coleções? No fundo não é só pra juntar mesmo? De vez em quando, coleções ganham ares utilitários e são expostas, fazendo com que até museus se formem em volta delas. São raros os casos. Na maioria, as coleções são várias versões de uma mesma coisa, formando um todo inútil.

Ao menos, minhas coleções são adquiridas de forma gratuita. As frases que coleciono podem ser ditas, escutadas, lidas ou pensadas. O meu interlocutor nem desconfia e eu zás: roubo uma frase e coloco em um dos vários caderninhos que me cercam (meus muquitos!).

Quanto aos marcadores, eles me fizeram entrar em um círculo virtuoso. Desde que descobriram que os coleciono, amigos e parentes me trazem de presente de viagem. Isso me torna um fardo a menos: “como é fácil dar presente para ela!”. Assim, sou mais querida, tenho mais amigos e ganho ainda mais marcadores.

Já propagandas eu sempre colecionei (já lancei a sessão “propagandas que coleciono”, muito mais atualizada no twiter). Antes do youtube, porém, guardava-as na memória. Decorava as músicas. Sempre adorei as músicas, até de propagandas que existiram antes que eu existisse. Quem nunca cantou “Voe Vasp. Céu azul, leste, oeste, norte ou sul”, foi mandado para a cama com um “já é hora de dormir, não espere a mamãe mandar”, se divertiu com o gordinho da Honda e seu pijama ou fez pipoca ao som de “pipoca na panela, começa a arrebentar...”. Como colecionadora, afirmo que propaganda para marcar tem que ser extremista, 8 ou 80, fazer rir ou emocionar.

Ainda irei falar das novas, mas não neste post, pois estou saudosista. Talvez escreva uma biografia – minha vida em propagandas.
Como eu disse, coleções são inúteis...

Para relembrar:





sábado, 4 de abril de 2009

O homem do discurso


Deixo aqui minha homenagem a Márcio Moreira Alves que, com coragem e deboche, fez a “gente careta e covarde” da ditadura se borrar tanto que o AI-5 foi proclamado. Um exemplo para todas as pessoas que diante dos abusos cometidos pelos fortes contra os fracos prefere não se envolver.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Ao mestre, com carinho


Recebo o convite de formatura de um rapaz que já foi meu estagiário. Dentre os agradecimentos aos familiares e amigos de faculdade, encontro meu nome, ao lado de outras pessoas para quem ele trabalhou. “.... mestres e referência, para a vida inteira”. Engasgo emocionada. Ligo e agradeço, mas nem consigo me lembrar direito da rápida conversa ao telefone. Leio e releio o trecho, em um misto de vaidade, surpresa e vergonha. Sim, vergonha. Não consigo encontrar em minha memória um único momento que seja – uma dica, uma conversa, a correção de um trabalho – que demonstre a minha contribuição na transformação do ex-estagiário em profissional.

Diferente de mim quando comecei. Consigo sentir o cheiro e lembrar dos sons do meu primeiro dia de estágio, de tão ávida que é a memória em minha mente. O jornalista Acyr Benfica era o meu chefe e a nossa missão era cuidar da comunicação de um importante colégio. Acyr já tinha muitos anos de profissão e trabalhado de televisão a campanha política. Eu estava no terceiro período de faculdade e ainda não tinha entrado nas matérias específicas de jornalismo. Ele me informou que teríamos um evento, me passou as informações e solicitou um release. Eu sorri e disse que tudo bem. Estava ali, no primeiro dia de trabalho do primeiro estágio que tive na minha área e não sabia o que era release. Recorri à internet e descobri que release vinha de press release, ou seja, um texto para informar a imprensa de algum fato. Esclarecido o significado vinha o segundo passo: como escrever um release? Havia escrito somente cartas, contos e poesias e o que tinha aprendido na faculdade até então seria muito mais útil para um artigo sociológico. Fui no modelo de redação escolar mesmo: um parágrafo de introdução, dois de desenvolvimento e um de conclusão.

Pela cara do Acyr quando eu entreguei o trabalho, logo percebi que o resultado tinha sido um desastre. Ele sentou ao meu lado e disse “vamos refazer juntos?”. Ele refez. A cada corte ou substituição de palavras, uma explicação. Aprendi ali como fazer um release (algo que nunca me foi ensinado nos quatro anos de curso universitário). A grande lição que tive, no entanto, foi sobre o que é ser generoso com o conhecimento e ter paciência com quem ainda não sabe. Depois disso, trabalhei com vários outros excelentes profissionais, mas o Acyr, com certeza, é um “mestre e referência, para toda a vida”.

A propósito, o ex-estagiário mencionado me impressionou com a qualidade do primeiro release que escreveu, logo em seus primeiros dias de trabalho.

André: felicidades na formatura e em sua trajetória profissional.