terça-feira, 22 de junho de 2010

Agradecimento

Estranho. É como o mundo agora me parece. Outro cheiro, outro sabor, as mesmas caras com outras feições. Alguém apertou a tecla de slow motion e eu passei a andar em câmera lenta, a enxergar em rotação desacelerada. Encontro-me naquele estado em que tudo importa menos. Em que tudo é nada. E o nada é aquilo que, agora, acontece à minha volta. Vida interrompida à espera de uma notícia que nem sei se quero ter.

Apesar disso, considero que tenho sorte. Acho que sou a pessoa mais sortuda que existe. Ao meu encontro já marchou todo o “exército da salvação” em forma de telefonemas, mensagens, abraços, colos e cafés. Até em forma de tristeza por não poder estar junto o tanto que gostaria. Caso não obtenham sucesso nesse resgate, aviso de uma vez que, para mim, saber que tentaram já é suficiente. A minha felicidade reside em saber que vocês estão ao meu lado, justamente como eu – apesar de muito pouco ter feito para isso – tinha certeza que estariam.

especialmente para: Leo, Joana, Batatinha, Beta, Carol, Thiago, Paulinha, Flávia, Ana, Cris, Fernanda e Fabiana. extensível a todos os meus amigos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Leite


Deve ser a lembrança guardada de um tempo em que ficávamos seguros e aconhegados no colo de nossa mãe. Lembrança de quando éramos felizes e alienados - felizmente alienados. Tempo em que comer e dormir era o que nos cabia e tínhamos quem nos alimentava e ninava. Provavelmente, vem daí a nossa ligação com o leite. Para minha avó, leite queimado era remédio de noites insones - para aquecer a garganta, cessando a tosse, ou a alma, cessando o soluço. Agora, que tanto a garganta quanto a alma doem, ardem e suplicam, quem me ama reconforta-me com leite. Leite é colo em sua forma líquida.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Busca


Aquilo que urgentemente, fervorosamente e desesperadamente desejo é apenas, e tão somente, me curar de mim.

domingo, 30 de maio de 2010

Não tente mergulhar em mim

Não tente mergulhar em mim.
Carrego no peito uma placa que diz em letras garrafais: “Proibido ultrapassar”.
Sendo assim, não ouse, não force, jamais invada.
Deixe minha máscara onde ela está.
E não me desnude com sua impertinência.

Não tente mergulhar em mim.
Medos e sonhos são reservados a poucos.Escolhidos a dedo.
A você, nada além de trivialidades.
Devaneios sobre vestidos de primavera ou aventuras de verão.
Contente-se com a epiderme.

Não tente mergulhar em mim.
Dessa porta, você não carrega a chave.

sábado, 22 de maio de 2010

Estação


Na estação deserta,
Cheia de esperança, mala azul desbotada, sapato vermelho, casaco marrom, laço no cabelo.
Espera, espera, espera.
Senta, levanta, olha a estrada.
O relógio grande de metal da parede faz tic-tac, tic-tac
e tic-tacteia o tempo.
Tic-tacteia sua ansiedade.
O trem velho aparece em câmera lenta.
Mãos geladas, coração acelerado, respiração interrompida.
Desce a velha, a criança, o bêbado.
Ninguém mais.
Ninguém não veio.
Desembarcou na estação errada.

domingo, 2 de maio de 2010

Brado mudo

Cena de "Terra em Transe"

Na última sexta-feira, acordei com vergonha de ser brasileira. Daqui a pouco estarei em Buenos Aires e talvez fique por lá mesmo. Certamente, torcerei para o Chile na próxima Copa do Mundo. O motivo? Porque somos o país do “pra debaixo do tapete”. É assim que resolvemos nossas questões e conflitos. É assim que pretendemos seguir adiante. Foi o que demonstrou, mais uma vez, o STF ao se recusar a revisar a Lei da Anistia. Torturadores e estupradores, sob a benção oficial, permanecerão sem serem julgados.

Um dos pronunciamentos mais infelizes foi o de Ellen: “não é possível viver retroativamente a história”. Poupe-nos, ministra! Enquanto os arquivos não forem abertos e os responsáveis não forem julgados, a ditadura militar será uma história ainda vivida e não passada. Dilma também escorregou (talvez, no seu próprio passado) e disse ser contra o “revanchismo”. Já as famílias de torturados e desaparecidos preferem chamar de justiça.

Enfim, na última sexta-feira acordei com vergonha de ser brasileira. O brado retumbante deste povo “heróico” há muito se calou.

Veja a sensacional "Campanha pela Memória e pela Verdade" feita pela OAB-RJ: http://www.youtube.com/watch?v=b_lrjkAWAZk&feature=related

terça-feira, 27 de abril de 2010

Duas formas do Thiago partir


Thiago está de mudança pra Oslo e eu achei péssimo. Ele mora em Londres. Londres fica a cerca de 8 mil quilômetros de Belo Horizonte. Para Oslo são 10 mil. Dois mil quilômetros a mais de distância. Quando Thiago morava por essas bandas, em algumas épocas, nos víamos sempre, todos os dias. Depois, ficávamos com overdose um do outro e passávamos meses sem nem nos falar. De qualquer forma, era reconfortante saber que ele estava aqui e que para ter seu colo bastava um telefonema – a qualquer hora do dia ou da noite.

Thiago está de mudança pra Oslo e eu estou toda orgulhosa. Ele mora em Londres, onde está concluindo seu doutorado. Quando Thiago morava por essas bandas, em algumas épocas nos víamos sempre, todos os dias. Hoje, para resolver a saudade e não ficarmos meses sem nos falar usamos a tecnologia. Mesmo assim, conversamos pouco. De qualquer forma, é reconfortante saber que ele está aqui, a um clique – a qualquer hora do dia ou da noite – mesmo com o fuso horário.