quinta-feira, 31 de março de 2011

Pílula do Dia

Sermos nós mesmos dá tanto, mas tanto trabalho, que desisto de mim antes mesmo de me tentar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Pílula do Dia

Cuidado com o que deseja! Maldizer os sentimentos que o perturbam pode acarretar em seriíssimo e intolerável castigo: nada mais sentir.

domingo, 27 de março de 2011

Alternativa

Queria tomar o mundo.
Bebê-lo inteiro.
Devorar-lhe cada pedaço.
E, assim, o fez.
Junto com o prazer, também veio o amargo:
Polícia, Igreja, direita;
Racismo, machismo, homofobia;
Regras e códigos a serviço da infelicidade;
A segurança sobre a liberdade.
O mundo estava contaminado.
Então, ela finalmente entendeu.
Era necessário juntar-se com os seus,
E, de estranho útero pária,
Gerar um mundo novo.

Para Carol, por sempre questionar.

sábado, 26 de março de 2011

Homônimos

Nome é uma coisa muito séria. Por isso, o cuidado deve ser redobrado quando você tem um homônimo, afinal, um outro alguém pode jogar seu nome na lama.

- Alô, é Pedro Ivo Albuquerque?
- Sim, quem fala?
- Aqui é Pedro Ivo Albuquerque.
- Trote uma hora dessas?
- Não! É verdade. Somos homônimos.
- Meu Deus...
- Surpreso?
- Claro!
- Eu monitoro você há três anos.
- Me monitora?
- Sim, e aproveito pra te agradecer. Você tem cuidado muito bem do nosso nome. Conduta ilibada. Só teve aquela moça que falou mal de você pelo facebook, mas eu desconsiderei. Não me parecia uma opinião muito consistente. De qualquer forma, você poderia selecionar melhor suas companhias... Mas, no geral, não tenho do que reclamar.
- ...?
- Enfim, mas não foi pra te jogar confetes que liguei. É que temos um problema.
- ....!?!
- O Pedro Ivo Albuquerque anda aprontando.
- Eu?
- Não. Outro. Mora em Porto Alegre. O comportamento desse cara ainda vai nos causar problemas.
- E o que você quer que eu faça?
- Participe da nossa conference call hoje à tarde.
- Nossa?
- Estou convocando todos os Pedros Ivos Albuquerques do país para definirmos, em conjunto, qual atitude iremos tomar. Adianto que a situação é gravíssima.
- Sei não...
- Você não se importa com o seu nome?
- Claro... Mas...
- É sua responsabilidade.
- Tudo bem. Que horas?
- Às três da tarde. Entraremos em contato.
- OK.
- Então, até lá.
- Pedro!
- Oi...
- Só mais uma coisa.
- Diga.
- Como eu faço pra ter uma lista de telefones e endereços dos participantes?

segunda-feira, 7 de março de 2011

Pílula do Dia

Desejo curar-me, mas temo que isso abale, de maneira irremediável, o amor que sinto por mim.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Vejo-os

Vejo mortos.

Nem precisa continuar a me imaginar cinematograficamente mediúnica, como o rapazinho assustado de “Sexto Sentido” a sussurrar “I see dead people”. Não é nada disso.

Vou ser paciente com você que é tão paciente comigo, mesmo eu retornando a este tema: a morte. É que eu vivo (e não consigo rir da presente ironia) pensando nela. Então, pacientemente, reformulo a frase: vejo os meus mortos.

Percebo que ainda não fui compreendida. Tire a viseira e tente mais uma vez. Não vejo gente morta. Não vejo a minha gente morta. Não mantenho contato, nem visual que seja, com espectros fantasmagóricos a me contarem informações além-vida. Gostaria de ter essas informações. Gostaria de saber como estão, se me esperam e, principalmente, se sabem se essa será uma espera longa.

Vejo meus mortos, agora sim, o tempo todo. Vejo-os nos objetos, nos móveis, na rua. Vejo-os na televisão e no cinema. Nas revistas e nas notícias do jornal. Vejo-os nos livros que leio à noite e no café que tomo pela manhã. Vejo-os em tudo o que gostaria de com eles compartilhar. Vejo-os naquilo que sei que eles gostariam de também ver. Vejo-os nos lugares, nas viagens, nos cheiros, nos sons e nos hábitos que carrego.

Sei que estão mortos. Duramente, sei disso. Vê-los, no entanto, em todas as coisas que me cercam, é aceitar que estão mortos, mas nunca, jamais, matá-los. Vê-los é a minha pequena vitória sobre a morte.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Música de Ninar

Dorme,
Ó meu anjo lindo,
Que a noite vem vindo,
Quem vela sou eu.
*
Dorme,
E sonha comigo,
Ó meu grande amigo,
Quem vela sou eu.
*
Dorme,
Com riso na boca,
Que a noite é tão pouca,
Quem vela sou eu.
*
Antônio cantava essa música de ninar para sua neta. Quase trinta anos depois, ela cantarola baixinho sua melodia quando a escuridão da noite significa muito mais do que ausência de luz. Ao ninar-se com a música do avô, ela projeta sua alma para longe da solidão e das sombras, para um lugar na memória afetiva onde tudo é aconchego, proteção e amor.