segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Batom

De vez em quando ele, com muito esforço, conseguia colocá-la sentada na cama. Penteava-lhe os cabelos e passava-lhe um batom vermelho na boca. Ela não sorria e permanecia sem nada demonstrar, mas esse era o único sopro de vida que sentia naqueles dias cinzas.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Surpresa


Um urso chamado Bartolomeu, um ralador de última geração, duas mãos estendidas, uma caixa azul, dois livros desejados, uma vela perfumada, duas barras de chocolate, três beijos na boca, um livro do Gabriel Garcia Marques, um espremedor de alho, uma declaração inesperada, um pacote de balas, a última temporada de House, um CD, um caderno, uma mala a fazer e a certeza renovada de que a vida é bonita também.  

domingo, 16 de setembro de 2012

Paulo Navarro: fim da picada


No dia 8 de setembro, o colunista social Paulo Navarro publicou a seguinte nota no jornal da Pampulha:

"FIM DA PICADA: As autoridades precisam se entender quanto à programação da Serraria Souza Pinto e atividades sob o viaduto Santa Tereza. Um prejudica o outro, porque têm públicos totalmente diferentes. Dia 31, a performance de cantores de rap assustou os convidados do Baile da OAB, sobretudo as mulheres. Por isso, a Serraria deixou de ser palco de grandes eventos sociais".

A nota de Navarro espelha a elite tacanha e preconceituosa de Belo Horizonte. A enxurrada de equívocos que, especula-se, não é este o Navarro que escreve, começa já na primeira linha. Na contramão do que clama parte da população da cidade, Paulo convoca as autoridades, porque, para ele e seus pares, não existe possibilidade de diálogo e debate na esfera pública sem a intermediação de um poder regulador. O motivo é claro: as regulamentações, constantemente, estão a serviço de Paulo e Cia. Exemplo notório disso é o decreto da Praça da Estação publicado pelo atual prefeito após pressões da empresária Ângela Gutierrez.

Na sequencia, Navarro afirma que um prejudica o outro. Trata-se de um “achismo”, uma vez que Paulo, ao que se sabe, não entrevistou nenhum integrante ou público do Duelo de MCs. Aqui, o colunista lança mão da imparcialidade como estratégia quando, na verdade, é porta-voz de apenas um lado. O motivo do prejuízo – “porque têm públicos totalmente diferentes” –, é puro eufemismo. O que Paulo quer dizer é que, de um lado, estão brancos e ricos e, do outro, pretos e pobres. 

Na gênese da criação de Belo Horizonte está o fetiche da segregação. A “cidade jardim” que teve uma avenida separando o centro moderno e promissor da periferia invisível não foi feita para a convivência. Quando o manto da invisibilidade começa a ser rasgado, a elite se desespera (e chama a polícia, o prefeito, o governador, o papa). Pessoas como Paulo não querem e não estão preparadas para entender que uma cidade democrática pressupõe a convivência de cidadãos de grupos sociais, credos, etnias e opções sexuais diferentes. Pessoas como Paulo estão, agora, comemorando o advento dos “frescões”. 

É necessário dizer que fico absurdada de alguém que escreve em um jornal chamar o Duelo de MCs de performance de cantores de rap. O evento, que ocorre semanalmente há cinco anos, é pacífico, aberto, gratuito e nada tem que justifique o “susto” das bem vestidas e laqueadas senhoras da capital mineira. Quem entrava na Serraria, coalhada de seguranças e grades de proteção, assustava sim, mas era com a cor da pele dos que estavam embaixo do viaduto. Preto só não assusta quando está na cozinha, na obra, estacionando o carro. Pretos (e brancos) em grande número, a serviço da celebração de uma cultura negra, urbana e periférica, é pânico na certa. 

Quanto à Serraria, se ela deixou de ser palco de grandes eventos sociais só tenho a comemorar. Quem sabe, agora, esse local encontre uma forma de cumprir a função pública para a qual ele foi reformado. Além do mais, a Souza Pinto tem à sua porta um dos maiores e mais importantes eventos culturais que existe atualmente na cidade, motivo de orgulho para qualquer espaço que se preze. 

Escrevendo esse texto me lembrei de um do Sakamoto em que ele dizia: “Não tenho medo de ser assaltado em meu carro porque não tenho carro. Não receio que levem minhas jóias ou meu relógio caro porque não tenho relógio. Não fico com pavor de entrarem na minha casa e levarem tudo porque meu bem mais precioso é um ornitorrinco de pelúcia. Não me apavoro em andar na rua à noite a não ser por conta do risco de chuva. E por mais que vá a bons restaurantes de vez em quando, devo ressaltar que nunca fui assaltado em nenhuma barraca de cachorro-quente… Acho que já deu para entender o recado. Não tenho medo da minha cidade porque, tenho certeza, ela não precisa ter medo de mim”. Naquele dia, eu estava lá. Vendo a contradição entre aquilo que ostentam dois universos tão distintos também tomei um susto. Como vem acontecendo quase cotidianamente, tomei um susto com o Brasil.


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Onde está?


Onde está a felicidade? 
Você a perdeu?
Tenho certeza que deixei aqui em algum lugar.
Eu te vi mesmo com ela. Tô lembrando...
Não viu? Agora eu não consigo mais achar.
Vi sim. Tava na sua mão.
Mas eu perdi. Não consigo achar de jeito nenhum.
Já olhou na gaveta?
Olhei em todos os lugares.
Você perde tudo...
Vai ficar me acusando?
É uma constatação: não pode colocar nada na sua mão que você perde.
De que adianta me recriminar? A felicidade sumiu! 
Mas você tem que ter responsabilidade com as coisas!
Vai ver foi você quem pegou!
Eu?
É. Você escondeu a felicidade de mim!
Por que eu faria isso?
Pra me jogar na cara que eu perco tudo.
Eu devia era ter escondido mesmo. Assim, saberíamos onde ela está.
(...)
O que?
Preciso dela.
É importante?
Muito.
Jura que é importante pra você?
Juro.
Então eu vou te arrumar outra. Maior e mais bonita. Você nem vai se lembrar dessa que perdeu.
Promete?
Prometo. Agora pode parar de chorar. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Quando


Quando o mundo fica cinza e deserto e chato e parecendo que estou boiando meio que desligada de tudo, acontece a mesma coisa. Desde que te conheço – há quantos anos te conheço? – é a mesma coisa que acontece: você aparece com esse jeito mais doce de me lembrar que se importa. Você sempre se importa, porque me ama, me admira e me poetiza (e me faz sentir uma fraude, é verdade). E ai você tem essa mania de vir me salvar mesmo quando eu não peço. 

Li o bilhete e chorei, mas não respondi por que deu um nó tão grande na garganta que eu não dei conta de desatá-lo para colocar em palavras. Queria revelar – sob a pena de partir suas ilusões com um machado imaginário gigantesco – que eu não sou corajosa. Gostaria de ser, mas tenho medo de escuro (e do monstro no armário, lembra?). Tenho medo também de nunca mais termos na vida aquelas tardes à toa, fumando, escutando música e tendo o tempo inteirinho nas mãos e pela frente (confesso que sinto uma saudade especial dos meninos e do tanto que eles nos faziam sofrer sem que, no fundo, tenhamos algum dia sofrido realmente).

É você que sempre me faz voltar aqui e é também você que, muitas vezes, me faz voltar a mim. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Não vá dormir

Não vá dormir.
Não durma nunca.
Fique pra sempre acordado.
Como saberei, enquanto está dormindo, se sou amado?
E se no seu sonho aparecer um outro alguém?
E se ficar enamorado?
Se dorme é porque não reside em você o medo de me perder.
Como pode dormir sabendo-me aqui?
E se no meu sonho aparecer um outro alguém?
E se meu coração for raptado?
Além disso, tenho saudades de você.
Até quando dormimos abraçados.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Por que marcham as vadias?


Um dia na faculdade um menino veio conversar comigo. Me contou que eu estava com fama de fácil. Detalhe que talvez importe na narrativa: estudávamos, eu e o menino, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Não sei se sua intenção era boa ou ruim e isso pouco me importava, mas ele enfatizou: todo mundo diz. Também não me lembro qual foi sua reação diante da minha retumbante gargalhada. Talvez tenha ficado surpreso ou me achado louca. Pode, ainda, ter pensado, compadecido, que era uma atitude de desesperado embaraço diante de tão abaladora revelação. Às vezes, machista é tão ingênuo! 

Eu não estava abalada, muitíssimo pelo contrário. Ria regozijando e era inteira tomada de uma profunda satisfação. Era tão grande o orgulho que sentia que, imediatamente, adotei  uma postura ereta, queixo erguido, passadas firmes, quase arrogantes. O que, alguns anos antes, teria me provocado imenso horror, me encheu de uma sublime alegria.  Eu tinha chegado lá e era, enfim, uma vadia. 

Confesso, consternada, que no plano afetivo-sexual pouco fiz para merecer a condecoração. Nesse quesito, minha vida era uma espécie de O Artista: nem tão ruim que saímos no meio da seção, nem tão bom que merecesse ganhar o Oscar. Soldado raso no campo da vadiagem era tratada, no entanto, como general, comandante da putaria.

Existindo minhas peripécias sexuais apenas na fantasia daqueles que me nomeavam, por que minhas mãos na calçada da fama?  Elementar, meu caro Watson: eu não me encaixava. Ou melhor, eu não me encaixava mais. Finalmente, o mundo compreendia a mudança lenta e gradual, pé ante pé, que eu fazia na minha vida. Uma tentativa de ligar cada vez mais o fôda-se, de me desvencilhar das neuroses da minha criação, da escola onde estudei, de trajetórias e comportamentos pré-determinados. Ainda estava tão lá atrás... 
PAUSA PARA SUSPIRO NON SENSE: Ainda estou tão lá atrás... Tão contraditório, mas quanto mais ando em minha direção, mais distante fico de mim. É uma loucura de sempre almejar mais me ser e então converto-me em algo quase inalcançável para mim mesma... Ainda carrego tantos pesos... Ainda tenho tantas amarras... 
Mas, para um grupo da faculdade, eu já estava em outro lugar, já era essas mulheres, já era esse tipo. Mesmo que, secretamente, eu me sentisse uma farsa, assumir minha nova forma social foi uma experiência epifânica. E, tendo apenas um gostinho da liberdade, eu entendi que ser livre é quase tão libertário quanto morrer, e o melhor: não precisa morrer. 

Como vadia que sou, amanhã estarei na marcha. Marchamos contra a opressão de gênero, pela legalização do aborto, pelo direito pleno ao nosso corpo, contra os padrões de beleza e a violência, contra o machismo (o racismo e a homofobia), contra a ideologia da mulher-coisa, pela valorização do indivíduo, da humanidade, pela paz, pelo respeito, pelas mulheres da Eliana Silva. Marchamos, com postura ereta, queixo erguido, passadas firmes e juntas, porque a liberdade de sermos quem somos é um poder real e imbatível que temos sobre o mundo.