sexta-feira, 19 de abril de 2013

O skinhead e os reaças de esquerda


Ontem, o BHAZ publicou um vídeo satirizando o skinhead Donato. O final insinua as violências físicas e sexuais que o preso agora, na cadeia, irá sofrer. Outro dia, circulou uma foto do mesmo Donato com machucados frutos de socos que levou de outros presos. Detido, sob a tutela do Estado, Donato deveria estar resguardado, assim como tantos outros, de atos como esses. Tanto o vídeo quanto a foto foram amplamente compartilhados.  

Festejados pela maioria, os hematomas do skinhead que maltrata moradores de rua e, mais ainda, a possibilidade dele ser estuprado como retaliação, foram aplaudidos até por pessoas que quase sempre estão, ao menos virtualmente, ao lado das minorias. Defensores de um mundo menos sexista, machista, racista e homofóbico, pessoas a quem Feliciano não representa, defendendo também, pasmem, o olho-por-olho, o estupro e, em uma análise mais profunda, a violência do Estado. 

Achar que uma pessoa tem que apanhar por ser um criminoso repugnante é legislar a favor da tortura. Porque não podemos nunca, nem mesmo por um segundo, nem mesmo para punir um nazista, tolerar que um ser humano seja violentado. Porque não podemos ter, nesse ponto, nenhuma única exceção. Devemos nos lembrar sempre de que exceções podem abrir terríveis precedentes. Porque devemos cobrar que o Estado proteja os seus cidadãos, todos eles, inclusive a população carcerária. Porque não podemos ser guiados pelo desejo de desumanizar, assim como Donato faz com os moradores de rua. Porque isso é nos igualar a ele. 

Quando me dizem que existem policiais que não se deixam corromper pelo sistema, eu argumento que nunca soube de um que tenha denunciado seu superior por este ter dado um único tapa em um criminoso já algemado. Porque não devemos aceitar que exista nenhum único tapa arbitrário. 

Donato merece ser preso e condenado, não espancado, não estuprado. Porque nunca, jamais, em tempo algum, nem diante daquilo que mais nos enoja, podemos defender o uso de força do mais forte contra o mais fraco. Porque a nossa luta deve ser por justiça, não por vingança.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A classe merda, as domésticas e minha resposta para Renata

Essa carta é para Renata Mangione (uma pessoa que não conheço, apesar de ter visto fotos de seus lindos filhos loiros e de suas viagens e de estar ciente de seu interesse por moda e de sua devoção por Nossa Senhora). Escrevo para Renata pelo simples fato dela ter escrito uma outra carta para sua empregada doméstica. 

Prezada Renata,

Na carta endereçada à sua empregada doméstica você demonstra preocupação ao tratamento que tem que dar a ela "a partir de agora, com a nova lei". Na seqüência, você lista uma série de novas obrigações e deveres que as "profissionais" devem ter. Em primeiro lugar, fiquei curiosa com o porquê disso.  Por que agora você passará a exigir coisas que não exigia antes da PEC? Só consigo pensar  na mentalidade do "tô pagando". 

Não sei se é o seu caso, mas percebo um movimento de pessoas que se sentem "roubadas" pela nova lei e que pretendem descontar nas domésticas, em uma tentativa de compensar perdas. Mas, a verdade Renata é que, diferente do que diz a Veja, não existem perdas. O que existe é uma tardia tentativa de justiça. Apenas se essa lei fosse aplicada de forma retroativa é que chegaríamos a algo parecido com equiparação de direitos. Porque, veja bem, a somatória das perdas acumuladas pela injustiça está incontestavelmente pesando para o lado mais fraco (que não é você, ok?). Você entra nessa com séculos de vantagem, se essa discussão fosse apenas uma questão monetária-legalista.

Mas ela não e. Equiparadas legalmente aos demais trabalhadores, as empregadas (e empregados) domésticas continuam no plano prático mas, principalmente, no simbólico e no social, muito diferentes de pessoas que ocupam outras funções. Talvez nenhum outro trabalho encarne tão perfeitamente o estereótipo do servilismo escravocrata, no qual se fundou a nossa - pelo visto a sua - visão de trabalho. A sua tentativa de equiparar a sua emprega a você, no âmbito profissional, é uma tentativa também de negar o preconceito e a subserviência históricos que pairam sobre o trabalho dela. Gostaria de saber se em seu trabalho cotidiano você cuida dos filhos do seu chefe, enquanto deixa os seus. Quantas vezes você já limpou a sujeira literal que seus superiores fizeram? Em quantos momentos foi obrigada a se deparar com a ostentação de objetos de consumo que valem o seu salário de um ou dois meses (talvez mais)? Renata, o trabalho da sua empregada doméstica não tem nada a ver com o seu ou com os das pessoas que você verdadeiramente pode chamar de amigas.

Retirando o perverso do seu raciocínio, não posso me abster de dizer que suas opiniões refletem os mais boçais dos clichês repetidos como mantras pela elite conservadora desse pais. Confesso que exclusivamente essa ladainha dos impostos já não me indigna mais, pois a preguiça venceu. 

Por fim, a sua visão do mercado de trabalho de uma forma global é terrível. Me compadeço de qualquer trabalhador submetido às regras por você listada. Me compadeço da sua empregada doméstica por ter que, diariamente, trabalhar para você. Mas, sobretudo, me compadeço das pessoas que você cria com essa mentalidade tão arcaica.

Sem mais.

Julia