sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Beth, a louca


Uma moça destruiu um carrão em uma via pública. Especula-se que era um viral do Bradesco Prime tentando nos convencer de que vale à pena fazer um seguro com uma empresa que tenta nos envolver em um engodo. Queria que não fosse um viral, porque simpatizei com ela, diferente dos que filmavam supondo ser uma história real e a achando loca demais, eu me compadeci de sua ira e quis inventá-la como uma conhecida. Existem outros vídeos na internet, reais, de atos insanos como esse e costumeiramente seus executores ganham minha simpatia. Talvez porque sinto que já estive, em alguns momentos, a poucos passos de cometê-los. Talvez já até tenha cometido, mas sob a proteção de minhas quatro paredes, longe dos smart phones do mundo, longe da possibilidade de que a alcunha de louca fosse além dos gritos de reação de quem me olhava estupefado.

Cabelão, corpo esquio, andar de gazela e martelo na mão, Beth bateu bastante no Honda preto do namorado. Está sendo chamada, e sabe disso, de “A louca da Vila Olímpia”. Já eu não cai na rede, na boca do povo e não queimei no fogo do inferno, mas não estou imune a atos de insanidade, a ficar muito louca, a responder com som e fúria significando nada. Costumo quebrar muito mais do que carros com o martelo que carrego na língua. Sou bem capaz de rasgar roupas, furar pneus e demais coisas bem clichês dessa loucura que insistem em chamar de feminina (se fosse um homem, nessa situação, será que seria chamado de O louco ou lhe cairia melhor O vingador da Vila Olímpia?). 

Não estou fazendo aqui uma defesa da insanidade e do quebra-quebra. Beth, minha ruiva inventada, está errada. Eu estou errada quando ajo como ela, porque a vingança não deve ser uma escolha plausível. Porque quando quebramos, os cacos também nos atingem. Mas talvez Beth tenha, ali, na quebradeira e loucura teatralizada e filmada para a posteridade, encerrado de vez sua vingança. Está errada, claro, mas o saldo de um carro estilhaçado pode ser perdoado. Ronaldo, o ex-namorado, talvez nunca a perdoe, pois amava seu carro mais do que tudo. Mas e nós? Não era nosso nem o carro, nem o relacionamento. Também temos que condená-la e marcar em seu rosto, pelo prazer do circo de horrores (que agora curtimos e compartilhamos), o apelido de louca? Ou podemos enxergar a humanidade por trás de seus enormes óculos escuros? 

Beth teve uma insanidade passageira, confidenciou-me a pouco em um misto de sentimento de culpa e de um bem que ele mereceu que, acredito, irá passar. Diferente de uma pessoa bem mais vingativa que conheci recentemente. No lugar de destruir o carro do ex-amor que a decepcionou por não amá-la mais, ela martelou em coisas bem mais significativas, que não se resolverão em um martelinho de ouro, que não são recuperadas em concessionárias. Sei que deixar de nos amar é um direito do outro que não temos a faculdade de compreender sem o necessário tempo de cura. Sei que dói e que não estou imune de gritar em mim a vontade de vingar, destruir, estraçalhar também coisas profundas, apesar de nunca ter estado a poucos passos de me vingar com tamanha magnitude de ninguém. O que não compreendo é porque Beth é chamada de louca e essa outra pessoa de mãe. 

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